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Variações da neve levam a derretimento na Groenlândia

As modificações na precipitação de neve, provocadas pelo aquecimento global, constitui um fator crítico para a aceleração do derretimento da calota polar da Groenlândia. Os modelos climáticos não reproduzem adequadamente esse fenômeno, o que traz maior incerteza nas projeções futuras de retração da calota polar, apontou estudo de um grupo internacional de cientistas.

Estima-se que o derretimento atual da Groenlândia responda por mais de 25% do aumento do nível médio do mar. Segundo o estudo, o aumento de perda de massa registrada desde 2000 na região se deve à elevação do escoamento superficial da água nas margens da calota polar.

O processo funciona da seguinte maneira. Com a chegada do verão, a neve depositada sobre pequenas áreas nas margens da calota polar derrete, expondo o gelo à radiação solar. Por ser mais escuro – menor albedo – e poroso do que a neve, o gelo absorve o dobro de luz do sol, além de facilitar o escoamento da água derretida.

Compreender a dinâmica de modificação do albedo da calota polar ainda é um grande desafio para os cientistas e seus modelos climáticos. Isso porque abrange um conjunto complexo de processos físicos e biológicos, operando em escalas de tempo sazonais.

Mesmo ocorrendo em uma área pequena da Groenlândia, considera-se que as modificações no albedo tenham sido o principal elemento por trás da aceleração do derretimento registrada entre 2000 e 2011.

Um dos processos diz respeito à alteração na precipitação de neve. Mudanças na distribuição e quantidade de neve podem interferir na taxa de derretimento, como tem sido registrado para as geleiras da região dos Alpes. Mas esse processo recebeu pouco atenção no caso da calota polar da Groenlândia.

Os cientistas investigaram se modificações na precipitação de neve ocorreram no Ártico, e como teriam contribuído para o derretimento da calota polar. Por meio da combinação de imagens de satélite e levantamento em campo, mapearam a distribuição da neve entre 2001 e 2017.

A partir daí, examinaram possíveis influências sobre o albedo da calota polar, e a possível consequência para a taxa de derretimento do gelo. O estudo identificou que a distribuição da neve variava significativamente de estação para estação e de ano para ano.

Em locais onde a neve diminuiu ou deixou de cair, o gelo ficava exposto, reduzindo o albedo da calota polar e fazendo com que a taxa de derretimento subisse. Entre 2001 e 2017, os cientistas estimaram que as mudanças na precipitação de neve responderam por 53% da variabilidade na quantidade de luz solar absorvida.

A influência da variação de neve na amplificação do derretimento das margens da calota polar seria cinco vezes maior do que a influência de outros processos hidrológicos e biológicos.

Modelos climáticos atuais ainda não representam apropriadamente as variações na precipitação de neve da Groenlândia. Eles se baseiam na suposição de que as modificações no albedo continuarão de forma linear. No entanto, os cientistas alertaram que a redução da neve e a maior exposição do gelo ao sol – diminuição do albedo – se dá de forma não linear.

Em um mundo em aquecimento, se permanecer a tendência da neve se restringir a áreas de maior altitude, é possível que o derretimento da Groenlândia se acelere ainda mais. O nível do mar subiria ainda mais do que o previsto.

Mais informações: Ryan, J. C., et al. “Greenland Ice Sheet surface melt amplified by snowline migration and bare ice exposure.” Science advances 5.3 (2019): eaav3738.
Imagem: Flickr – NASA/John Sonntag

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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