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Variação da chuva faz a floresta mais resistente

Um dos possíveis impactos do aquecimento global pode ocorrer na Amazônia. Projeções de modelos climáticos sugeriram que a floresta corre o risco de experimentar mortalidade em larga escala em cenários futuros de mudanças climáticas. Trechos da Amazônia desapareceriam, sendo substituídos por vegetação do tipo cerrado.

Nesses cenários, uma grande quantidade de dióxido de carbono – CO2 -, atualmente armazenado na floresta, seria liberado para a atmosfera. As concentrações atmosféricas do gás de efeito estufa subiriam ainda mais, levando a uma acentuação do aquecimento.

Mas estudo de um grupo internacional de cientistas apontou que a Amazônia é mais resiliente às mudanças climáticas do que o suposto. Regiões que historicamente experimentaram uma maior variabilidade da precipitação apresentam maior estabilidade frente a distúrbios climáticos.

Segundo o estudo, os diferentes tipos de vegetação dependem do nível de precipitação média anual. Níveis de precipitação superiores a 2.100 mm ao ano estão associados com vegetação quase exclusivamente do tipo floresta tropical de várzea. Já a vegetação do tipo cerrado ocupa áreas nas quais o nível de precipitação média fica abaixo de 1.300 mm ao ano.

Regiões com precipitação média anual na faixa entre 2.100 mm e 1.300 mm podem sustentar tanto a floresta tropical  quanto o cerrado. Todavia, nessas regiões, a cobertura vegetal do tipo floresta poderá ser alterada para cerrado sob influência de distúrbios como secas extremas ou incêndios.

Na Amazônia, as projeções de modelos climáticos indicam um cenário futuro com secas mais prolongadas e maior déficit hídrico. Entre as implicações dessas mudanças no clima estão um aumento na mortalidade das árvores e no risco de incêndios, favorecendo a transição dos ecossistemas florestais para o cerrado.

Uma das limitações dos modelos era a ausência de uma avaliação adequada da resiliência da floresta amazônica às mudanças climáticas. Os cientistas exploraram essa questão, investigando como a vegetação responderia à mudanças futuras na precipitação média anual.

Com base em dados de satélite de alta resolução, em combinação com um conjunto de séries históricas, eles traçaram o efeito abrangente e de longo prazo da variabilidade das chuvas na vegetação tropical. A parte noroeste da floresta amazônica tem pequena variabilidade, enquanto que o leste e os trechos perto da Bolívia e Venezuela experimentam variações tanto sazonais quanto entre um ano e outro.

Mapas de projeções de mortalidade em larga escala da Amazônia
Os mapas apresentam as projeções de regiões da Amazônia susceptíveis à conversão da floresta em cerrado. Inclui cenários de baixas (c) a altas (f) emissões de gases de efeito estufa. Fonte: retirado da figura 4 do estudo.

A partir dos dados, elaborou-se um mapa de paisagens potenciais, medindo-se sistematicamente a resiliência dos diferentes ecossistemas. Identificou-se que os pontos da floresta amazônica expostos no passado de longo prazo a variações nas chuvas estariam melhor adaptadas, capazes de resistir e de se recuperar de eventos climáticos negativos.

Dessa forma, a possibilidade de mortalidade em larga escala da floresta amazônica depende não somente de mudanças na precipitação média anual. O efeito estabilizador da variabilidade histórica da chuva também influencia o grau de vulnerabilidade da floresta.

Em um cenário de altas emissões de gases de efeito estufa, o estudo ressaltou que o declínio dos níveis de precipitação média anual irá reduzir gradualmente a resiliência da Amazônia nas próximas décadas. O impacto mais do que dobraria em regiões que experimentaram baixa variabilidade de chuva no passado – em especial, o sul da floresta amazônica.

Compreender melhor o efeito estabilizador da variabilidade da precipitação exigirá mais pesquisa na Amazônia. Outros fatores, como o tipo de solo, a biodiversidade local, ou a temperatura, também contribuem significativamente para a saúde e a resiliência da floresta.

E não são apenas distúrbios climáticos que ameaçam a floresta. Eles irão se somar ao desmatamento em larga escala, que também provocam uma diminuição na quantidade de chuvas. A influência negativa do desmatamento não foi considerada pelo estudo.

Mais informações: Ciemer, Catrin et al. Higher resilience to climatic disturbances in tropical vegetation exposed to more variable rainfall. Nature Geoscience, p. 1, 2019. Para acessar uma cópia do estudo, clique aqui.
Imagem: Flickr/ Vihh

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