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Uso de combustíveis fósseis subiu em países ricos em reservas

Nos países com grandes reservas nacionais de combustíveis fósseis, registrou-se na última década um grande aumento na demanda interna de energia primária proveniente dessas fontes, identificou estudo de pesquisadores de universidades da Suécia. Ao mesmo tempo, esses países investiram moderadamente ou pouco em fontes renováveis, tendência que coloca em risco o objetivo de limitar o aquecimento global.

O acordo climático de Paris estabeleceu a meta de manter a temperatura média global bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais, com esforços para 1,5°C. Para tanto, haverá a necessidade de cortes drásticos de emissões de gases de efeito estufa até 2050.

Uma avaliação a respeito do cumprimento das metas estimou que, a partir de 2020, as emissões globais teriam de cair pela metade a cada década. Além disso, tecnologias de sequestro e armazenamento de carbono precisariam ser desenvolvidas e iniciar a operação após 2050. Nesse cenário seria possível alcançar a meta de 1,5°C.

Gráfico da evolução da demanda de energia primária de combustíveis fósseis, fontes eólicas, solares, outras renováveis, hidrelétricas e nucleares. Apresenta os dados do período entre 1972 e 2015. A partir de 2020, a linha preta tracejada mostra a redução necessária da energia produzida a partir de combustíveis fósseis, a fim de se alcançar a meta do acordo de Paris. Fonte: figura 1 do estudo.

De acordo com o estudo, aproximadamente 70% das emissões globais de gases de efeito estufa ocorrem por meio da liberação de dióxido de carbono – CO2 – pela queima de combustíveis fósseis, incluindo carvão, gás natural e petróleo. Nesse sentido, limitar o aquecimento global exigiria manter os combustíveis fósseis no solo. Tecnologias de captura e armazenamento de carbono podem contribuir apenas marginalmente para mitigar as emissões.

Mas o panorama atual do setor energético mundial não mostra qualquer sinal de mudança. Apesar da rápida expansão das fontes renováveis ​​na última década, a participação dos combustíveis fósseis na demanda global de energia permanece inalterada, em torno de 80%. Grandes reservas de combustíveis fósseis, especialmente carvão, permanecem inexploradas.

Os pesquisadores buscaram analisar em detalhes as tendências no uso de combustível fóssil, investigando a relação entre reservas nacionais de combustíveis e as tendências no uso e na implementação de energia renovável. Foram avaliados 10 países individuais – Austrália, Brasil, Canadá, China, Alemanha, Índia, Japão, Rússia, EUA, Venezuela -, além de duas regiões, a União Européia e o Oriente Médio.

O gráfico mostra o investimento global em energia renovável entre 2004 e 2015 (linha preta), comparando a participação de combustíveis fósseis (linha tracejada com círculos) e de renováveis (linha tracejada com triângulos) na demanda total de energia primária. Apesar dos investimentos triplicarem, não se registrou crescimento na participação das fontes renováveis. Fonte: figura 2 do estudo – Frankfurt School/UNEP.

Contendo cerca de 80% das reservas globais, o estudo identificou como ricos em reservas a Austrália, a China, a Índia, a região do Oriente Médio, a Rússia, os EUA e a Venezuela. Os demais países e a União Européia foram classificados como pobres em reservas.

O carvão se mostrou como o principal tipo de combustível fóssil em termos de reservas ainda inexploradas.

Para cada um dos países e áreas estudadas, os pesquisadores levantaram dados da demanda de energia primária, entre 2004 e 2015, proveniente de combustíveis fósseis e de energia renovável.

O estudo identificou uma tendência de crescimento constante na demanda de energia primária de combustíveis fósseis no Oriente Médio, na China, na Índia e na Venezuela. O crescimento mais intenso, tanto em termos absolutos quanto em percentuais, ocorreu na China, ao mesmo tempo em que a participação das fontes renováveis diminuiu.

O consumo primário de combustíveis fósseis da Índia subiu 82% entre 2004 e 2015, enquanto que a demanda de renováveis registrou uma queda de 6%. No Oriente Médio, onde o consumo primário de energia renovável é praticamente inexistente, a demanda originada de combustíveis fósseis aumentou 54% desde 2004. A Rússia experimentou um aumento modesto, de 6%, no consumo primário de combustíveis fósseis.

Entre os países ricos em reservas, os Estados Unidos constituiu a única exceção. A substituição do carvão pelo gás natural, associada a um declínio de 16% no consumo de petróleo, causou uma redução na demanda primário de combustíveis fósseis.

Tanto a Austrália quanto a Venezuela tiveram um crescimento no consumo de combustíveis fósseis entre 2004 e 2013 , a primeira de 9% e a segunda de 29%.

De modo geral, o estudo registrou que o crescimento no consumo de combustíveis fósseis foi significativamente maior em países e regiões ricas em reservas do que naqueles pobres em reservas. Isso levou os pesquisadores a concluir que a abundância de combustíveis fósseis representa uma grave ameaça à mitigação do aquecimento global.

Países e regiões dotados de grandes reservas não tenderão a impor limites estritos às emissões de gases de efeito estufa ou ao uso de combustíveis fósseis. De acordo com o estudo, limitar o aquecimento transformaria as reservas domésticas, bem como parte da infraestrutura associada, em ativos improdutivos e sem valor.

Os pesquisadores recomendaram o desenvolvimento de políticas climáticas direcionadas aos países com grandes reservas de combustíveis fósseis. Elas deveriam considerar também o fluxo comercial entre os países recentemente industrializados, ricos em combustíveis fósseis, e os países desenvolvidos, buscando estimular a redução das emissões.

Mais informações: The threat to climate change mitigation posed by the abundance of fossil fuels
Imagem: Unsplash/ Dominik Vanyi

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