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Transformar o setor energético de forma integrada

A transformação do setor energético enfatiza a oferta, a mudança tecnológica e tem foco primordialmente na escala nacional. Essa abordagem é insuficiente e não traduz os desafios a serem enfrentados, afirma estudo de pesquisadora do Reino Unido. A transição para um mundo de baixo carbono implicará uma reconfiguração global das atividades econômicas e sociais, tanto no interior dos países quanto entre diferentes nações.

O estudo alerta para a centralidade do consumo nas emissões de gases de efeito estufa. Metade da população mundial, ou aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas, são responsáveis apenas por cerca de 10% das emissões globais totais atribuídas ao consumo individual. Quase metade das emissões globais podem ser atribuídas ao consumo dos 10% mais ricos do mundo. A pegada de carbono do 1% mais rico da população mundial é 175 vezes maior que a dos 10% mais pobres.

Pode-se avaliar bens, serviços e commodities importados em termos de emissões de gases de efeito estufa incorporadas – isto é, geradas durante sua produção e transporte. Segundo o estudo, ao analisar o consumo e as emissões incorporadas, revelam-se as desigualdades ecológicas e socioeconômicas dentro de um mesmo país e entre diferentes países.

Apesar disso, o consumo e as emissões incorporadas são usualmente negligenciados nos tratados internacionais, em políticas energéticas e de mitigação da mudança climática. Mas a pesquisadora afirma que as metas do acordo climático de Paris, extremamente ambiciosas, não poderão ser alcançadas sem abordar o consumo e as emissões incorporadas. 

O estudo explora formas de investigar as emissões do setor energético incorporadas em bens, serviços e commodities consumidos pelos setores industrial, comercial e residencial, e pelos indivíduos. O Reino Unido foi adotado como exemplo. O país apresenta uma das economias menos intensivas em energia entre os países desenvolvidos, e também uma das maiores importações líquidas de emissões incorporadas.

A  pesquisa se baseou em uma análise de relatórios de departamentos governamentais do Reino Unido, de órgãos parlamentares, e de think tanks e serviços de informação. Também incluiu a compilação de estatísticas da base de dados de indicadores do Desenvolvimento do Banco Mundial e do Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido.

As emissões totais diretas do Reino Unido caíram em 35% desde 1990. Entre os fatores, incluem-se mudanças na geração de energia, aumento da eficiência energética e desindustrialização. Todavia, do ponto de vista do consumo, o país se tornou mais intensivo em energia e emissões associadas. Entre 1993 e 2010, as emissões incorporadas ao consumo subiram 16%.

No período também se observa um crescimento na importação de emissões incorporadas em bens, serviços e commodities produzidas em países emergentes. Entre 1993 e 2010, o crescimento foi de 60%, com a China respondendo atualmente por 20% do total. Em 2004, as emissões incorporadas em importações da China superaram todas as emissões diretas dos setor residencial do Reino Unido, incluindo gás e combustível para carros.

O estudo sugere que reduções de emissões de um país de alta renda são obtidas em parte devido ao deslocamento de indústria intensivas em carbono para países de menor renda. O movimento leva ao aumento das emissões em outros lugares.

Nesse sentido, segundo a pesquisadora, o modo como consumo de energia, emissões de gases de efeito estufa e crescimento econômico são tratados no debate de descarbornização do setor energético é simplista. Promover a mudança do setor energético precisa extrapolar os atores e fronteiras nacionais ou regionais.

Deve-se compreender melhor a cadeia de atividades que se estendem da produção ao consumo. Investigar as dinâmicas transnacionais e as interdependências espaciais, de forma a transição para um mundo com menor dependência do carbono se dê de modo integrado.

Mais informações: Of embodied emissions and inequality: Rethinking energy consumption
Imagem: Pixabay

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