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Aos trancos e barrancos aumenta o nível do mar

No final da última glaciação, o aumento no nível do mar não ocorreu de forma constante, mas em aumentos súbitos e pontuais, revela estudo de cientistas dos Estados Unidos. Ao contrário do que é representado pelas projeções futuras de aquecimento global, o aumento do nível do mar pode ocorrer aos trancos e barrancos.

Geleiras de proporções semelhantes às calotas polares da Groenlândia e da Antártica ocupavam as regiões de alta latitude do Hemisfério Norte durante a última glaciação. Estima-se que no auge as geleiras acumulavam cerca de 50 milhões de quilômetros cúbicos de gelo. Com menor volume de água, o nível do mar era aproximadamente 130 metros menor do que o nível médio atual.

Mapa mundial com indicação das geleiras no Hemisfério Norte (em branco). Fonte: Rice University

O estudo foi baseado no mapeamento de 10 fósseis diferentes de recifes de coral no litoral do estado do Texas, na região do Golfo do México. Os fósseis de recife ficavam entre 48 e 56 quilômetros da costa, submersos em uma mesma profundidade de aproximadamente 59 metros.

Pesquisas anteriores haviam indicado que os fósseis de recife coral se formaram a partir de 19.000 anos atrás, no fim da última glaciação. As geleiras e calotas de gelo do Hemisfério Norte começaram a derreter, provocando o aumento do nível do mar em todo o mundo. Porque vivem em simbiose com uma espécie de alga, os corais dependem da luz solar, e por isso ocorrem em regiões de águas superficiais. O aumento do nível do mar obrigou os corais a se adaptarem até que as novas condições ultrapassassem sua capacidade de sobrevivência.

Segundo os pesquisadores, a história do aumento do nível do mar e da resposta e adaptação dos corais a esses aumentos permaneceu preservada na forma e estrutura dos fósseis. Através de um sonar de última geração, foram produzidas imagens em três dimensões detalhadas dos recifes de coral. Analisando a morfologia de cada parte de cada um deles, os cientistas puderam descrever essa história.

Mesmo distante quilômetros uns dos outros, os resultados mostraram que os diferentes fósseis de recife possuíam o mesmo tipo de formação em terraços. Trata-se de uma resposta ao aumento do nível do mar. Se o aumento for lento o suficiente, o coral se adapta construindo uma nova camada mais próxima da superfície da água sobre a camada anterior.

O estudo sugere que o aumento do nível do mar não se deu de modo constante. Pelo contrário, ele foi marcado por eventos repentinos e pontuais, seguidos de pausas. Grandes aumentos de nível em um curto período de tempo se intercalavam com longos períodos de aumento pouco significativo. Foi durante essas pausas que os recifes de coral cresceram, a fim de se adaptar às novas condições.

Os cientistas alertam para as implicações dessa descoberta. Até o momento, a ciência não dispunha de evidências detalhadas do aumento do nível do mar no passado. Dessa forma, nas projeções futuras de aquecimento global, a opção foi apresentar os riscos ligados ao nível do mar em um formato linear, de aumentos constantes anuais. É o caso, por exemplo, das projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês. Elas consideram que o aumento do nível do mar até 2100 será linear e constante, subindo um pouco a cada ano.

Mas o estudo revela que uma situação de aumento brusco e significativo é também possível de ocorrer. As comunidades costeiras precisam estar preparadas, alertam os cientistas.

Produzido pela Universidade de Rice, onde leciona um dos cientistas envolvidos no estudo, o vídeo abaixo (em inglês) traz um breve resumo do estudo e suas descobertas.

Fonte: Rice University
Mais informações: Coralgal reef morphology records punctuated sea-level rise during the last deglaciation
Imagem: Figura 2d do estudo – morfologia de um fóssil de recife de coral

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