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Tendências de derretimento no Ártico desde 1850

A aceleração na taxa de derretimento da calota polar da Groenlândia e do gelo marinho do Ártico se iniciou a partir das décadas de 1940 e 1950. Recentemente, o derretimento alcançou níveis sem precedentes pelo menos desde 1850, apontou estudo de um time de pesquisadores de universidades da Alemanha e da Noruega.

O presente século observa a aceleração da perda de gelo marinho do Ártico e da calota polar da Groenlândia. Entre as consequência dessa mudança, incluem-se a diminuição da salinidade das águas superficiais do Atlântico Norte, alterações na circulação do oceano, ou o aumento do nível médio mar.

Em resposta ao aquecimento global, a calota polar da Groenlândia entrou em um processo de retração. Ela está diminuindo de tamanho. O gelo, ao derreter, converte-se em água doce, correndo pelo continente em direção ao mar. Estima-se que 60% da água doce resultante do derretimento da Groenlândia alcancem o Mar de Labrador, no norte do Atlântico.

Nessa região ocorre a formação de águas mais densas, que submergem para camadas mais profundas do oceano. Ela funciona como um dos motores de uma corrente oceânica global chamada de Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico.

A liberação de água doce pelo derretimento da Groenlândia interfere nesse processo. Segundo o estudo, desde meados do século passado, registra-se um enfraquecimento de 15% na intensidade da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico.

Os dados instrumentais acumulam evidências da perda de gelo no Ártico e do aumento de água doce no Atlântico Norte. O desafio, porém, era avaliar essa tendência em um contexto histórico maior, já que dados de instrumentos começaram a ser coletados somente a algumas décadas atrás.

Para obter informações do passado, os pesquisadores utilizaram sedimentos retirados de uma depressão marinha na costa oeste da Islândia. Eles analisaram, nas diferentes camadas de sedimento, fósseis e vestígios de organismos marinhos.

A partir da análise, foi possível extraír dados a respeito das condições ambientais do passado. Combinaram essas informações com dados observacionais históricos da extensão do gelo marinho do Ártico. Dessa forma, reconstruiram as tendências regionais dos últimos 170 anos.

O estudo detectou que a redução da salinidade no Atlântico Norte subpolar teve início em 1940 e 1950. Durante essas décadas, a elevação do derretimento do gelo marinho ártico e da calota polar da Groenlândia seria reflexo de fatores naturais em operação desde 1900.

Verificou-se um aumento da temperatura nas condições atmosféricas locais na década de 1920. A ele se seguiu um aquecimento local das águas do oceano na década seguinte, 1930. Junto com outras influências, criaram-se condições favoráveis à aceleração da descarga de água doce entre 1940 e 1950.

Gráfico de tendencias de descarga de agua doce no ártico desde 1850 e fatores
No gráfico superior, a tendência de descarga de água doce proveniente de derretimento do gelo. No gráfico do meio, a linha preta mostra as mudanças na radiação solar, e a linha lilás, o aumento das concentrações de CO2. O último gráfico mostra as Oscilações climáticas do norte do Atlântico, que influenciam a taxa de derretimento. Fonte: adaptado da figura 3 do estudo.

A partir de 1960, a tendência de derretimento passa a sofrer também a influência do aquecimento provocado pelo aumento das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa.

Mais recentemente, a partir do ano 2000, diminuiu a influência de fatores naturais. Apesar disso, o derretimento da calota polar e do gelo marinho continuou a uma taxa sem precedentes. Nesse sentido, de acordo com o estudo, a manutenção da tendência nas últimas três décadas tem como principal fator o aquecimento global.

Um dos efeitos do aumento de água doce no Atlântico Norte foi elevar a fertilização das águas superficiais do oceano. Com isso, e junto com a redução do gelo marinho, cresceu a produção primária marinha – organismos locais se tornaram mais abundantes.

Isso sugere que a região pode elevar sua contribuição para o sequestro de carbono, à medida que avance o derretimento. Organimos marinhos absorvem o CO2 da atmosfera, cujo destino final pode ser o fundo do oceano.

Ao estender as informações sobre o Ártico para o passado, o estudo mostra que o Ártico entrou definitivamente na era do aquecimento global.

Mais informações: Perner, K., Moros, M., Otterå, O.H. et al. An oceanic perspective on Greenland’s recent freshwater discharge since 1850Sci Rep 9, 17680 (2019).
Imagem: Figura 1 do estudo – mapa das correntes oceânicas do Atlântico Norte ao redor da Groenlândia e da Islândia. O ponto marca o local no qual o sedimento marinho foi coletado.

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