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Subirá o número de pessoas expostas à dengue

Em um cenário de altas emissões de gases de efeito estufa, cerca de 1 bilhão a mais de pessoas poderão ficar expostas à transmissão de dengue, chikungunya e Zika. O motivo seria a modificação na distribuição do mosquito em resposta às mudanças climáticas, deslocando a ocorrência dessas doenças para regiões de altas latitudes, indicou estudo de pesquisadores dos Estados Unidos.

Uma das consequências do aquecimento global e das mudanças climáticas poderá ser na distribuição e incidência de doenças infecciosas ao redor do planeta. Em especial, daquelas transmitidas por mosquitos, atualmente limitada devido às condições climáticas. E o caso dos mosquitos do gênero Aedes, transmissores de diversas doenças infecciosas graves.

Duas espécies despertam atenção: o Aedes aegypti e o Aedes albopictus. Segundo o estudo, ambas as espécies se espalharam em zonas tropicais, subtropicais e temperadas de todo o mundo. O Aedes aegypti está ligado à condições específicas de centros urbanos – entre as quais, a presença de água limpa e parada para sua reprodução. Ele apresenta uma tolerância térmica mais favorável para funcionar como vetor.

Por sua vez, o Aedes albopictus apresenta maior flexibilidade ecológica, adaptando-se tanto ao ambiente urbano quanto a zonas suburbanas e rurais. Ele apresenta uma distribuição latitudinal mais ampla, adaptando-se a regiões com invernos frios. Mas a sua tolerância térmica o faz menos competente do que o o Aedes aegypti na transmissão da dengue, da chikungunya e da zika.

Com isso, em função das mudanças climáticas, cada espécie apresentará modificações geográficas e sazonais específicas. Para explorar as possíveis modificações das espécies em um futuro de aquecimento global, os pesquisadores desenvolveram um modelo de transmissão viral pelos dois vetores, associado à temperatura. Após testar esse modelo com dados atuais de transmissão das doenças, eles projetaram o risco futuro, em 2050 e 2080, considerando cenários de baixas a altas emissões de gases de efeito estufa.

As áreas mais afetadas seriam a Europa, as regiões tropicais e subtropicais de alta altitude – como o leste da África e o norte dos Andes -, os Estados Unidos e o Canadá.

Os resultados sugeriram que o número de pessoas em risco de exposição, durante pelo menos um mês do ano, à transmissão de doenças pelas duas espécies de mosquito crescerá até 2050. Estimou-se que cerca de meio bilhão de pessoas passarão a conviver com o risco de transmissão, em especial através do Aedes aegypti. O número foi maior em cenários de média-altas a altas emissões.

As projeções para 2080 indicaram uma resposta diferente para cada espécie de mosquito. Os cenários de médias emissões mostraram o maior aumento do risco de exposição sazonal à doenças transmitidas pelo Aedes albopictus. Os cenários de altas emissões levariam quase 1 bilhão de pessoas a ficarem expostas pela primeira vez ao risco de exposição sazonal ligadas ao Aedes aegypti.

Mapa de projeção da distribuição de mosquitos Aedes
Projeções da distribuição do Aedes aegypti (coluna à esquerda) e do Aedes albopictus (à direita) em 2050 e 2080 para o cenário de altas emissões de gases de efeito estufa. Fonte: figura 2 do estudo.

Todavia, em termos do risco de transmissão durante o ano todo, os resultados apresentaram variações significativas. Isso se deu por causa do impacto do aumento da temperatura, que ficariam tão quentes em algumas regiões a ponto de ultrapassar o limite térmico dos mosquitos.

Dessa forma, em 2050, o aquecimento eleva o número total de pessoas, entre 100 e 200 milhões, que vivem em áreas de potencial transmissão de doenças pelo Aedes aegypti durante todo o ano. Por outro lado, cai a quantidade de pessoas expostas à transmissão de doenças pelo Aedes albopictus durante todo o ano. Essa diferença ocorreu porque o Aedes albopictus possui menor tolerância ao calor.

Em 2080, nos cenários de maiores emissões de gases de efeito estufa, a queda no número de pessoas expostas o ano todo ao Aedes albopictus subiria para 700 milhões. Até mesmo o Aedes aegypti não resistiria ao calor, e em algumas partes dos trópicos, como no Brasil, ele não conseguiria mais sobreviver o ano inteiro.

Em qualquer cenário, o aquecimento global teria como provável efeito elevar a incidência de dengue, chikungunya e outros doenças virais transmitidas pelo mosquito Aedes em países de renda alta. Por exemplo, na Europa e nos Estados Unidos. Em cenários mais extremos, a transmissão das doenças poderia diminuir em países tropicais de baixa renda.

Mais informações: Ryan SJ, Carlson CJ, Mordecai EA, Johnson LR (2019). Global expansion and redistribution of Aedes-borne virus transmission risk with climate change. PLoS Negl Trop Dis 13 (3): e0007213.
Imagem: figura 1 do estudo – mapa de distribuição do Aedes aegypti (a) e do Aedes albopictus (b), com a porcentagem da população mundial exposta à transmissão de doenças nos respectivos gráficos

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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