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Solos congelados emitirão mais carbono que o previsto

Ao longo deste século, as regiões de solos congelados poderão emitir metano – CH4 – e dióxido de carbono – CO2 – em quantidades bem superiores ao previsto anteriormente, alertou estudo de um grupo de cientistas de universidades da Alemanha e dos Estados Unidos.

Se esse cenário se concretizar, as concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa subirão ainda mais, intensificando o aquecimento global.

A região do hemisfério norte ocupada por solos congelados possui o maior reservatório terrestre de carbono orgânico. Enquanto permanecer congelado, esse reservatório se manterá estável.

Todavia, segundo o estudo, observações recentes e projeções indicam que o aquecimento irá tornar os solos congelados vulneráveis à decomposição por micróbios. Isso provocará a liberação do carbono na forma de emissões de metano e CO2.

Em geral, as projeções se basearam em modelos computacionais muito básicos. Os modelos operam em grandes escalas de paisagem, sem o suficiente detalhamento. Outra limitação é que eles representam apenas o gradual derretimento dos solos. Outros processos de degradação mais abruptos não haviam sido considerados.

Os cientistas trabalharam com um modelo incluindo processos relacionados ao lagos polares denominados de thermokarst. Eles são formados quando, devido ao derretimento do solo, o acúmulo de água leva ao colapso do terreno. Nos lagos thermokarst em expansão, os solos descongelam de forma muito mais rápida e mais profunda.

A ilustração mostra o derretimento abrupto dos solos no fundo de lagos thermokarst – à direita. Esse processo é mais veloz do que o derretimento gradual – à direita. Fonte: adaptado da figura 2 do estudo.

O estudo investigou dois cenários futuros – um de médias e outro de altas emissões de gases de efeito estufa até 2100.

Dados a respeito da formação atual de lagos no Ártico foram obtidos através do monitoramento do Alasca, nos Estados Unidos. Através de sensoriamento remoto, o estudo mapeou o crescimento das áreas ocupadas por 73.804 lagos thermokarst da região.

O modelo apontou um aumento no volume de sedimentos degradados pela formação ou expansão de lagos no Ártico. Para ambos os cenários, esse processo deverá resultar em emissões desproporcionalmente grandes de carbono para a atmosfera até 2100, em especial na forma do gás metano.

O cenário de médias emissões de gases de efeito estufa implica em uma redução de 50% nas emissões humanas de CO2 até 2100. Para tanto, aproximadamente 20 gigatoneladas de CO2 precisarão ser emitidas a menos a cada ano. As projeções dos cientistas indicaram que a região de solos congelados irá liberar 1,5 gigatoneladas de CO2 equivalente ao ano no cenário de médias emissões, e 4,2 CO2e no de altas.

Apesar de menor, a quantidade de carbono liberada seria de magnitude semelhante às emissões provenientes da alteração do uso da terra. Após a queima de combustíveis fósseis, a alteração do uso da terra constitui o setor que mais emite gases de efeito estufa.

Nesse sentido, os cientistas alertaram que as emissões originadas da degradação da região de solos congelados podem dificultar o objetivo de mitigar agressivamente as emissões de CO2. Isso significa que cumprir as metas do acordo climático de Paris será bem mais desafiador do que o previsto.

De acordo com os cientistas, uma vez que os lagos são formados, eles continuam a se aprofundar mesmo em um clima mais frio. Dessa forma, a liberação do carbono pode ser irreversível. 

Além dos lagos thermokarst, existem outros processos de rápida transformação dos solos congelados não incluídos no estudo. As projeções do modelo talvez sejam conservadoras.

Mais informações: 21st-century modeled permafrost carbon emissions accelerated by abrupt thaw beneath lakes
Imagem: adaptado da figura 1 do estudo – lago thermokarst com bolhas de metano

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