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Soberania por meio do modelo climático brasileiro

Os modelos climáticos são mais do que artefatos tecnológicos utilizados pela ciência. Eles possuem um aspecto geopolítico, ligado ao desequilíbrio na produção científica sobre o tema das mudanças climáticas entre os países e, consequentemente, a participação de cada um na governança climática internacional.

A iniciativa brasileira de desenvolver modelos tiveram, nesse sentido, como um de seus objetivos alcançar uma condição de soberania nacional, apontou estudo de pesquisadores de universidades do Brasil e do Reino Unido. Inclusive no regime internacional de debate das mudanças climáticas.

O fazer científico pode variar entre os países devido às diferentes dimensões culturais e institucionais. Segundo o estudo, há pouca avaliação a respeito de assimetrias entre grupos de ciência de países desenvolvidos e em desenvolvimento, os obstáculos ao fazer científico dos últimos, e como se dá o encontro de realidades tão diversas em espaços globais de discussão como o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês.

Pesquisas anteriores identificaram no IPCC um viés em favor de países industrializados. Desde a sua criação, em 1988, os primeiros relatórios do IPCC eram elaborados predominantemente por especialistas de países desenvolvidos do Hemisfério Norte.

Gráfico da origem dos cientistas do IPCC
Origem dos cientistas que contribuíram para a elaboração dos relatórios do IPCC. Verifica-se a maior participação de cientistas de países desenvolvidos do Norte global. Fonte: figura 1 do estudo.

O estudo investigou se e como a distinção entre Norte e Sul esteve presente na construção do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre – BESM, um modelo climático nacional que permitiu ao Brasil, um país latino-americano, integrar o circuito de modelagem do IPCC. 

Os modelos climáticos são a principal ferramenta para previsões meteorológicas e a ciência climática. Os pesquisadores apontaram que a modelagem representa um princípio organizacional do fazer científico, tanto em centros meteorológicos quanto em relatórios do IPCC. Eles também subsidiam os regimes internacionais de governança.

Os modelos, contudo, exigiam uma grande capacidade financeira e técnica para seu desenvolvimento. Com isso, os modelos climáticos globais se concentravam em países do Norte, como os Estados Unidos, o Japão e centros da União Européia. As projeções e cenários de mudanças climáticas futuras ficavam restritos a esses países.

A investigação da história do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre – BESM – levou quatro anos de levantamentos de campo. Incluiu 29 entrevistas com informantes-chave do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE -, a participação em eventos científicos, e a coleta e análise de documentos relevantes e notícias veiculadas na mídia.

Identificou-se que alguns modeladores climáticos brasileiros reconheciam o privilégio de centros de pesquisa de países do Norte na produção científica sobre as mudanças climáticas. Os investimentos brasileiros no modelo BESM tiveram um caráter de soberania científica, servindo de instrumento para o país exercer sua soberania política nos fóruns internacionais.

Em vez de neutros, o conhecimento, a infraestrutura e as ferramentas científicas – como os modelos climáticos – trazem em si um papel geopolítico. De acordo com o estudo, a infraestrutura do fazer científico de cada país estaria imbricada na geopolítica das mudanças climáticas.

Mas as conquistas do Brasil se encontram agora ameaçadas. Os pesquisadores alertaram que a agenda do atual governo brasileiro abandona os investimentos na ciência, a proteção ao meio ambiente e o combate ao desmatamento. Está ameaçado o esforço de décadas de construção de uma posição de liderança na governança ambiental global.

Mais informações: Miguel, J. C. H., Mahony, M., & Monteiro, M. S. A. (2019). A “geopolítica infraestrutural” do conhecimento climático: o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre e a divisão Norte-Sul do conhecimentoSociologias21(51), 44-75.
Imagem: INPE / projeção de aumento da temperatura em ponto do sudeste de Minas Gerais para cenário de médias emissões de gases de efeito estufa

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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