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Série negacionismo: “o clima sempre mudou”

Do Skeptical Science, editado pelo Ciência e Clima – Um dos argumentos utilizados por aqueles que negam a ciência do clima afirma que o sistema climático está sempre mudando. No passado, o planeta passou por muitos períodos quentes e frios, flutuações originadas de causas naturais.

Os negacionistas utilizam a informação produzida pela ciência a respeito do passado terrestre e a aplicam ao presente. Dessa forma, o aquecimento global também seria devido a fatores naturais, sem qualquer relação com a atividade humana. Como se o trabalho da ciência tivesse se limitado a apenas identificar as mudanças do passado.

A ciência foi muito mais além do que isso. Ela investigou – e ainda investiga – as explicações por trás do fenômeno das alterações do sistema climático no passado geológico da Terra. Questiona-se, por exemplo, por que nos últimos milhões de anos o planeta atravessa ciclos glaciais, alternando longos períodos de forte glaciação e frios, com períodos menores interglaciais mais quentes.

A conclusão da ciência é de que existem dois tipos de mudanças no sistema climático. O primeiro está associado à variabilidade interna, dos quais o período quente medieval ou a pequena ‘era do gelo’ são exemplos. Pode-se dizer que os fatores internos são as flutuações naturais no sistema em um estado de relativo equilíbrio energético.

O segundo tipo de mudança tem origem em fatores externos ao sistema climático. Eles  interferem no equilíbrio energético do planeta – no balanço entre a radiação solar absorvida e a radiação infravermelha emitida de volta ao espaço. A ciência dá a isso o nome de forçante radiativa.

O sistema climático apresenta uma regra básica: quando se adiciona energia a ele – uma forçante radiativa positiva -, a temperatura sobe. Quando ele perde energia – uma forçante radiativa negativa -, a temperatura cai. No entanto, isso não acontece de modo linear e gradual, pois a variabilidade interna introduz grandes variações de curto prazo.

Os fatores externos são portanto os responsáveis pelas grandes alterações de longo prazo observadas no passado geológico do planeta. Eles causam mudanças no sistema climático e seus componentes em função da variação da forçante radiativa, alterando a quantidade total de energia. É o caso dos ciclos glaciais. 

Além de diferenciar variabilidade externa de fatores externos, a ciência climática identificou todos os fatores externos que operam no sistema climático terrestre. E um deles constitui as variações na concentração atmosférica de gases de efeito estufa.

Por exemplo, no passado geológico se observam episódios em que material proveniente do manto terrestre, lançado para a atmosfera na forma de gases, provocou o aumento das concentrações e a intensificação do efeito estufa – forçante radiativa positiva. Com isso, o sistema climático se aqueceu.

Atualmente, o sistema climático se encontram em outro momento de forçante radiativa positiva. A atividade humana tem emitido em taxas sem precedentes grandes volumes de gases de efeito estufa, em especial dióxido de carbono – CO2. As maiores concentrações dos gases levaram ao aquecimento observado no sistema climático desde 1750. A forçante radiativa do CO2 é muito bem conhecida, compreendida e confirmada por observações empíricas.

Uma das questões mais debatidas na ciência é: como a temperatura média global responderá à forçante radiativa positiva? A ciência chama a relação entre forçante radiativa positiva e temperatura média global de sensibilidade climática. Quanto mais sensível for o sistema climático, maior será a mudança de temperatura.

Uma das maneiras mais comuns de se investigar a sensibilidade climática é por meio da estimativa de quantos graus a temperatura média global subiria em um cenário no qual as concentração de CO2 dobrassem. Quanto o sistema climático se aqueceria? Se não houvesse nenhum feedback, a temperatura média global subiria 1,2ºC (Lorius 1990).

Contudo, o sistema climático possui feedbacks, tanto positivos quanto negativos. O mais forte feedback positivo é o vapor d’água, principal gás de efeito estufa. Conforme a temperatura sobe, também aumenta a quantidade de vapor d’água na atmosfera. Dessa forma, provoca-se mais aquecimento, reforçando-se o efeito inicial.

Também existem feedbacks negativos – mais vapor d’água no ar pode dar origem a uma quantidade maior de nuvens, que refletem a radiação solar de volta ao espaço. O resultado é um efeito de resfriamento.

O desafio é estimar a sensibilidade climática levando em consideração os feedbacks. O desafio foi enfrentado por um grande número de estudos independentes, empregando vários métodos de análise e cobrindo uma gama de períodos e diversos aspectos do clima. Eles convergem de maneira muito consistente para uma sensibilidade climática mais provável de 3ºC – isto é, dobrar a quantidade de CO2 na atmosfera provocaria 3ºC de aquecimento.

O conjunto de evidências indica que a soma dos feedbacks do sistema climático terá um efeito positivo. Eles reforçariam o aquecimento inicial causado apenas pela elavação das concentrações dos gases de efeito estufa. Não há nenhuma linha de evidência que indique valores muito altos nem muito baixos como melhor estimativa.

Fonte: Skeptical Science
Imagem: IPCC AR5, Figura 12-05 – gráfica de projeções de cenários do aumento da temperatura média global

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