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Sequestro de carbono pelos solos e seus limites

Não é viável realizar o sequestro de carbono atmosférico pelos solos na taxa sugerida para conter o aquecimento global. Dados de um experimento de longo prazo, realizado por cientistas do Reino Unido, mostram as limitações do uso dos solos para o sequestro de carbono em larga escala.

Durante a 21ª Conferência anual das partes – COP-21 -, realizada em Paris em 2015, foi lançada a iniciativa ‘4 por 1000’. Tratava-se de um plano de capturar e armazenar o carbono da atmosfera, na forma de matéria orgânica, nos solos mundiais.

A idéia era aumentar em 0,4% ao ano a quantidade de carbono presente nos solos ao longo de 20 anos. Com isso, esperava-se cortar pela metade o aumento anual das concentrações de dióxido de carbono – CO2 – da atmosfera. A medida contribuiria significativamente para a mitigação do aquecimento global.

A iniciativa foi adotada por diversos países. Ela também sofreu críticas. Questionava-se a viabilidade da taxa anual de sequestro de carbono pelos solos. Outra dúvida dizia respeito à quantidade total de carbono que poderia ser sequestrado. Os solos são capazes de armazenar mais carbono até que um patamar de equilíbrio é alcançado.

Os cientistas analisaram a capacidade de três tipos diferentes de solos de sequestrar e armazenar o carbono atmosférico. Utilizaram dados de 16 experimentos, cuja duração variava entre 7 e 157 anos. Compararam diferentes tipos de tratamento e manejo dos solos, verificando ao longo do tempo a quantidade de carbono sequestrado.

Em 65% dos casos, o estoque de carbono subiu cerca de 0,7% ao ano na camada entre 0 e 23 cm dos solos. O valor foi de aproximadamente 0,4% por ano para a camada entre 0 e 40 cm. Dessa forma, a taxa de sequestro proposta pela iniciativa ‘4 por 1000’ não foi alcançada para boa parte das amostras analisadas.

Mas o problema maior foi outro. O sequestro de carbono na taxa de 0,4% ao ano ocorreu somente mediante a adoção de ações extremas. Elas seriam impraticáveis ​​ou inaceitáveis. Um dos tratamentos avaliados, com aplicações de estrume animal, demandaria escalas que feriria as regulamentações da União Européia. Também causariam uma maciça poluição de nitratos.

A conversão de áreas de agricultura para vegetação trouxe grandes taxas de aumento do carbono dos solos. Mas a aplicação dessa medida em larga escala prejudicaria a segurança alimentar global, alertou o estudo. A aplicação de resíduos de culturas nos solos também se mostrou insuficiente.

O rotação dos usos de uma determinada área, intercalando períodos dedicados à culturas com outros dedicados à pastagem, trouxe aumentos significativos do estoque de carbono dos solos. Contudo, esses resultados só foram alcançados em situações nas quais, em cada 5 ou 6 anos, a área permanecesse ocupada com pastagens por pelo menos 3 anos.

Os cientistas também ponderaram que, embora os sistemas de manejo tragam ganhos ambientais, eles podem não se mostrar economicamente viáveis nas circunstâncias atuais. Políticas direcionadas ao sequestro de carbono em larga escala pela agricultura exigiriam mudanças na estrutura de subsídios e de apoio aos produtores rurais. Poderia haver impactos na produção total de alimentos.

Ações de sequestro de carbono pelos solos constituem uma estratégia fundamental para a mitigação do aquecimento global. De acordo com o estudo, é urgente disseminar práticas que estimulem a preservação dos solos na agricultura. Mas a proposta da iniciativa ‘4 por 1000’ foi considerada irreal e potencialmente enganosa.

Além disso, os cientistas ressaltaram que as práticas agrícolas também devem reduzir as emissões de óxido nitroso – NO2. Ações para conter as emissões desse gás de efeito de estufa, quase 300 vezes mais poderoso do que o CO2, também são eficazes.

Fonte: Rothamsted Research
Mais informações: Major limitations to achieving “4 per 1000” increases in soil organic carbon stock in temperate regions: Evidence from long-term experiments at Rothamsted Research, United Kingdom
Imagem: Freeimages

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