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Reduzindo emissões da agricultura sem afetar a produção de alimentos

O setor agrícola é responsável por cerca de 10% a 12% das emissões de gases de efeito estufa, além de estar ligado a aproximadamente 70% das emissões originadas pela alteração no uso e ocupação do solo – especialmente devido ao desmatamento. Mitigar o aquecimento global através da redução das emissões irá necessariamente exigir ações do setor agrícola.

Além de contribuir para o aquecimento global, o setor agrícola também deve sofrer suas consequências. As mudanças climáticas podem afetar significativamente a produtividade, especialmente nos trópicos. Fatores como o crescimento da demanda por reflorestamento e por biomassa para a produção de energia passarão a competir cada vez mais com o crescimento da demanda por alimentos oriunda do aumento da população.

Dessa forma, um dos maiores desafios do setor agrícola nas próximas décadas é implementar ações de mitigação sem prejudicar o aumento da produção de alimentos e de biomassa, ou comprometer a agricultura de subsistência de áreas rurais. Um time internacional de cientistas quantificou o tamanho do desafio. Adotando um cenário de aquecimento global limitado a 1,5 ° C, o estudo publicado pelos cientistas indica a possibilidade de perdas globais de calorias alimentares, variando de 110 a 285 kcal per capita por dia em 2050.

Gráfico indicando a relação entre a mitigação do aquecimento global a 1,5° C e a diminuição no consumo médio diário de calorias (linha preta). As linhas tracejadas incluem duas alternativas de incentivo ao sequestro de carbono pelos solos. O triângulo vermelho ilustra o caso da China. Fonte: figura 4 do estudo.

Segundo o estudo, a necessidade de mitigação pode afetar a produção de alimentos de inúmeras maneiras. O uso da terra pode ser direcionado da produção de alimentos para a produção de biomassa para produção de energia. A expansão das áreas pode sofrer limitações mais severas, de modo a preservar a cobertura vegetal e evitar a emissão de CO2 associada ao desmatamento. O próprio setor pode sofrer uma reestruturação, tornando a produção menos intensiva em gases de efeito estufa – como, por exemplo, a redução do rebanho de ruminantes. Finalmente, os custos de produção e o preço dos alimentos pode subir em função da implementação de práticas e técnicas de mitigação.

Os cientistas utilizaram um modelo computacional para avaliar a influência do estabelecimento de uma política de taxação do carbono no setor de agricultura, silvicultura e outros, no preço dos alimentos e na quantidade de energia consumida. Através do modelo, foi avaliado como a política de taxação do carbono pode incluir isenções regionais para o setor agrícola e incentivos ao seqüestro de carbono em terras agrícolas que gerem subsídios aos produtores.

Os resultados sugerem que os esforços de mitigação irão trazer uma perda no consumo diário médio per capita de calorias alimentares. Se os requisitos de mitigação forem organizados somente com base na relação custo-benefício, ou seja, adotando unicamente um lógica economicista, o estudo sugere que haverá o risco de aumentar entre 80 e 100 milhões o número de pessoas subnutridas até 2050.

Em termos de capacidade de mitigação, os cientistas identificaram dois grandes grupos de países. De um lado, o grupo de países ricos em terra, caracterizados pela agricultura extensiva e por largas emissões de gases de efeito estufa associadas principalmente ao desmatamento, como o Brasil ou os países da Bacia do Congo. De outro lado, países densamente povoados, como a China ou a Índia.

O primeiro grupo de países apresenta grande potencial de mitigação e baixo impacto sobre a produtividade agrícola. Consequentemente, o impacto na disponibilidade de calorias também é pouco significativo. De acordo com o estudo, esses países tem a capacidade de reduzir o desmatamento sem limitar a produtividade agrícola, alcançando uma significativa redução de gases de efeito estufa. 

No caso do segundo grupo de países, ações mitigadoras no setor agrícola trariam uma menor redução das emissões. Contudo, as ações influenciaram simultaneamente o consumo diário de calorias. Por exemplo, a China veria perdas de cerca de 420 kcal per capita por dia, uma vez que se projetou uma diminuição de 45% na produção de carne de ruminantes, de 38% na produção de leite, e de 21% na de arroz.

O estudo aponta para a relevância do seqüestro de carbono pelo solo em terras agrícolas como estratégia de mitigação do aquecimento global. As projeções sugerem que o desenvolvimento de estímulos ao setor agrícola de adoção dessa medida permite alcançar a meta de mitigação com uma perda de calorias em 65% menor.

Mais informações: Reducing greenhouse gas emissions in agriculture without compromising food security?
Imagem: Pixabay

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