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Reconstruindo o recuo da Antártica no fim da era glacial

No final da última glaciação, há mais de 26.000 anos atrás, o colapso da plataforma de gelo provocou a uma retração  de geleiras da calota polar da Antártica, contribuindo para o aumento do nível médio do mar. Mas o tempo entre um processo e outro demorou de séculos a milênios, identificou estudo de pesquisadores dos Estados Unidos e da Polônia.

As plataformas de gelo consistem em grossas camadas flutuantes de gelo localizadas na frente das geleiras da calota polar da Antártica. Elas são importantes porque retardam o fluxo de gelo das geleiras em direção ao oceano, funcionando como uma espécie de rolha.

Ilustração da plataforma de gelo. Fonte: adaptado da fig. 4-25 do IPCC AR5.

Todavia, devido ao atual aquecimento global, as plataformas de gelo do oeste da Antártica estão derretendo, tornando-se mais finas ou se fragmentando. Com isso, o efeito de sustentação do fluxo das geleiras da calota polar se reduz, o que pode trazer uma aceleração do derretimento.

Um dos exemplos mais recentes foi a quebra de um enorme iceberg da plataforma de gelo de Larsen C, na Península Antártica, entre 2016 e 2017.

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Animação realizada a partir de imagens de satélite mostram a quebra de um enorme fragmento da plataforma de gelo de Larsen C. Fonte: NASA.

Evidências anteriores indicavam que as plataformas de gelo na Antártica experimentaram um processo de colapso abrupto no fim da última era glacial. O objetivo do estudo foi investigar quanto tempo levou entre o desaparecimento das plataformas de gelo e a retração das geleiras da calota polar.

Para tanto, os pesquisadores mapearam e coletaram sedimentos do fundo do mar de Ross, na costa oeste da Antártica. Em laboratório, eles analisaram as conchas de fósseis de foraminíferas, animais unicelulares que vivera há milhares de anos atrás. Puderam assim reconstruir as alterações na criosfera local no passado.

Os dados indicaram que a plataforma de gelo do mar de Ross entrou em colapso por volta de 12.3000 anos atrás. Após esse evento, a geleira manteve a mesma posição de aterramento sobre a plataforma continental até aproximadamente 14.700 anos atrás. Só a partir de então, experimentou um reuou de 200 quilômetros.

Em função das incertezas associadas à datação dos sedimentos, o estudo estimou que o início do recuo das geleiras demorou entre pelo menos dois séculos e no máximo quatorze séculos após o colapso da plataforma de gelo. No contexto do tempo geológico terrestre, os pesquisadores lembraram que a estimativa máxima poderia ser considerada uma resposta instantânea.

Um ponto importante ressaltado pelos pesquisadores é que, na escala de tempo humana, o colapso de plataformas de gelo pode desencadear dinâmicas complexas que se farão observar apenas para as próximas gerações. As transformações registradas no presente terão consequências irreversíveis no futuro.

Mas as transformações atuais da criosfera ocorrem em um contexto bastante diferente do fim da última glaciação. A velocidade e a forma como as geleiras podem recuar deverá refletir essa particularidade. Por exemplo, como apontou o estudo, as geleiras da calota polar no presente são menores do que eram durante a última glaciação. Com isso, elas podem ser mais vulneráveis ao colapso das plataformas de gelo do que no passado.

Mais informações: A centuries-long delay between a paleo-ice-shelf collapse and grounding-line retreat in the Whales Deep Basin, eastern Ross Sea, Antarctica
Imagem: Figura 3 do estudo – fotografia de foraminíferas

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