Press "Enter" to skip to content

Quando o ‘global’ é parcial

O aquecimento global tem o potencial de causar interferência em sistemas naturais ao redor de todo o planeta, impactando espécies distribuídas em diversos ecossistemas. A fim de prever e mitigar essas futuras interferências, é crítico avançar no conhecimento das possíveis consequências do aquecimento global sobre a biosfera.

Esforços nesse sentido tem sido realizados pela ciência. Há diversos trabalhos que revisam e sintetizam estudos científicos a respeito de impactos das mudanças climáticas sobre espécies individuais, sobre grupos de espécies ou sobre sistemas naturais. No entanto, avaliando esses trabalhos de síntese, cientistas dos Estados Unidos ressaltaram que, apesar de importantes, eles sofrem de um forte viés geográfico e taxonômico.

Isso acontece porque, de acordo com os cientistas, a pesquisa científica ainda produz informações de forma gravemente escassa. Desse modo, algumas áreas e alguns grupos de espécies tem sido melhor estudados do que outros. O problema é que as revisões e trabalhos de síntese são muitas vezes apresentados como análises globais, mesmo trazendo essas lacunas.

Os cientistas apontaram que o viés geográfico ocorre de duas maneiras. Em primeiro lugar, a região dos trópicos é sub-representada, uma vez que ela abriga uma quantidade bem menor de pesquisa científica em comparação com as regiões temperadas. Isso é preocupante porque a vasta maioria das espécies do planeta são tropicais, e a expectativa é de que responderão às mudanças climáticas de uma forma distinta do que as espécies de regiões temperadas.

Em segundo lugar, o viés geográfico se mostra como uma ênfase desproporcional sobre espécies e ecossistemas terrestres, em detrimento daqueles marinhos. Esse resultado surpreendeu os cientistas, uma vez que a maior parte da biosfera é marinha e muitas espécies são altamente vulneráveis. Além disso, há na literatura científica inúmeros estudos avaliando os impactos das mudanças climáticas sobre espécies marinhas.

O viés taxonômico se deve à predominância de espécies animais, em especial vertebrados como mamíferos e aves – sendo que a maioria de espécies animais são invertebrados. A análise do impacto de mudanças climáticas sobre as espécies de plantas é sub-representada e, mesmo quando presente nas revisões e trabalhos, não recebe tratamento detalhado igual ao das espécies animais.

Os cientistas recomendam maior prudência em estudos globais dos ecossistemas naturais. Ao mesmo tempo, enfatizam a necessidade de reconhecimento dos limites existentes no conhecimento da influência das mudanças climáticas sobre a biosfera, de modo a que se possa aprofundá-lo por meio de novas pesquisas e iniciativas científicas.

Nota do ciência e clima:
O artigo exemplifica o desafio da ciência em realizar estudos de caráter global. Pode-se observar na ciência climática uma ênfase na perspectiva global, especialmente ligada ao uso de modelos computacionais, que simulam o planeta e seu sistema climático. Mas é desafiador reproduzir essa perspectiva (que é extremamente reducionista) em outros campos da ciência, como no caso de estudos da biosfera, devido à dimensão e complexidade do tema. Os limites no conhecimento científico deveriam estimular uma reação ainda mais preventiva e prudente, no que tange à mitigação da e adaptação à mudança climática.

Mais informações: Most ‘global’ reviews of species’ responses to climate change are not truly global
Foto: Freeimage/ Boris Gaasbeek

Be First to Comment

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: