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Projeções do IPCC podem subestimar emissões futuras

O impacto das mudanças no uso e ocupação dos solos na emissão de gases de efeito estufa pode ter sido subestimado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC na sigla em inglês -, afirma estudo publicado por cientistas dos Estados Unidos. Mesmo se todas as emissões da queima de combustíveis fósseis fossem completamente suspensas em 2015, mantendo-se a tendência atual de alteração do uso e ocupação da terra, o aquecimento global deve provavelmente chegar a 1,5°C acima do nível pré-industrial em 2100.

Para atingir a meta estabelecida no acordo de Paris, restringindo o aquecimento global a no máximo 2°C acima do nível pré-industrial em 2100, os cientistas apontam que a maioria das políticas implantadas está direcionada a diminuição das emissões da queima de combustíveis fósseis. As emissões originadas das alterações no uso e ocupação dos solos, como, por exemplo, quando uma área é desmatada e convertida em pastagem, não tem sido alvo adequado de medidas de mitigação.

Estima-se que a alteração no uso e ocupação dos solos corresponda a aproximadamente 10% das emissões antrópicas de dióxido de carbono – CO2 e a 20% do total acumulado das emissões. Todavia, ao contrário da queima de combustíveis fósseis, a alteração no uso e ocupação dos solos também emite outros tipos de gases de efeito estufa, principalmente o metano – CH4 – e o óxido nitroso – N20. Dessa forma, estima-se que ela responda por aproximadamente 40% do acúmulo de energia observado no sistema climático.

De acordo com o estudo, ao elaborar os diferentes cenários com a projeção de emissões de gases de efeito estufa, o IPCC adotou taxas de desmatamento futuro das regiões tropicais conservadoras. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO na sigla em inglês – estima taxas maiores de desmatamento, o que vem sendo confirmado por levantamentos por satélite.

Além disso, a maior parte das projeções nas quais o aquecimento global se limita a 2°C acima do nível pré-industrial pressupõem substanciais emissões negativas. Isso significa que a quantidade de gases de efeito estufa retirada da atmosfera deverá ser maior do que a quantidade emitida. Para tanto, as projeções contam muitas vezes com a disseminação de biocombustíveis, que demandam extensas áreas para cultivo, e também o sequestro de carbono por meio do uso e ocupação dos solos.

A fim de revisar as projeções do IPCC, os cientistas refizeram os cenários do clima futuro, separando as emissões da queima de combustíveis fósseis daquelas originadas de alterações no uso e ocupação dos solos. Com isso puderam quantificar a influência do uso e ocupação do solo no aquecimento global, incluindo uma avaliação do ritmo de desmatamento, tendo em vista as taxas observadas atualmente.

Os resultados estimaram um aquecimento de 1°C até  2100 devido exclusivamente às alterações no uso e ocupação dos solos, com uma significativa probabilidade de se exceder a meta de 2˚C acima do nível pré-industrial. O aquecimento ainda ocorreria em um mesmo desconsiderando as emissões da queima de combustíveis fósseis.

Se para mitigar a queima de combustíveis fósseis existem alternativas de geração de energia renovável, o mesmo não ocorre com o uso e ocupação dos solos, ressaltam os cientistas, devido à necessidade de terra arável para a produção agrícola. Nesse caso, mitigar as emissões de gases de efeito estufa é uma tarefa mais difícil e complexa. Mas que não pode deixar de ser incluída nas políticas em implantação, sob o risco de se exceder as metas do acordo climático de Paris.

Nota do ciência e clima

Mal entrou em vigor o acordo de Paris, vários estudos científicos questionam a viabilidade de se atingir a meta estabelecida. Em parte revelam o conservadorismo do IPCC, aspecto já observado por outros pesquisadores. E em parte a impossibilidade de mitigar as emissões de gases de efeito estufa sem uma alteração significativa na forma como as sociedades se organizam e vivem. A tendência é que se confirme os cenários de médias a altas emissões.

Mais informações: Are the impacts of land use on warming underestimated in climate policy?
Imagem: Ibama

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