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Peru está perdendo suas geleiras tropicais

Em pouco mais de uma década, entre 2000 e 2016, a área ocupada pelas geleiras andinas do Peru diminuiu aproximadamente 550 quilômetros quadrados, extensão um pouco maior do que a do município de Maceió, capital de Alagoas. A forte retração seria devido ao aquecimento global, apontou estudo de pesquisadores de universidades da Alemanha e do Peru.

A maior parte das geleiras tropicais do mundo, cerca de 70%, fica localizada no Peru. Elas ocupam uma área de aproximadamente 1.603 km² na cadeia de montanhas dos Andes, que cruzam o país de norte a sul, e são bastante sensíveis às condições climáticas.

As modificações observadas nas geleiras do Peru tem grandes implicações em outras áreas. De acordo com o estudo, as geleiras funcionam como reservatórios de água na estação chuvosa. Quando chega a estação seca, o escoamento da água de derretimento das geleiras abastece os cursos d’água.

Esse papel acaba comprometido depois que a retração da geleira atinge um ponto crítico. A partir daí, ela perde a capacidade de contribuir para o fluxo de água contínuo, introduzindo a possibilidade de escassez hídrica. Atividades que dependem do recurso, como a geração de energia hidrelétrica, a mineração ou atividades agrícolas, sofrem os danos.

Pesquisas anteriores registraram que na Cordilheira Blanca, região do país com maior concentração de geleiras, a área ocupada pelo gelo havia caído 46% entre 1930 e 2016, sendo que 33,5% da retração se deu entre 1975 e 2016. Em outra região do Peru, na Cordilheira Vilcanota, a área das geleiras diminuiu 30% no período 1988-2010. Nacionalmente, estimou-se uma perda de área de quase 43%.

O objetivo do estudo foi expandir o monitoramento anterior das geleiras tropicais do Peru. Através de informações obtidas por levantamentos de satélite, os pesquisadores calcularam o balanço de massa e as flutuações da área das geleiras em todo o país, abrangendo os anos de 2000 a 2016.

Gráfico da retração de geleiras do Peru
O gráfico apresenta os resultados do monitoramento das geleiras do Peru, com tendências separadas em três regiões distintas (linhas coloridas). A tendência geral é indicada pela linha preta, que inclui a estimativa desde 1970. Fonte: adaptado da figura 8 do estudo.

Identificou-se que as mudanças nas condições climáticas afetaram significativamente as geleiras do país. Além de uma retração adicional de quase 550 km², as geleiras peruanas também perderam massa a uma taxa de até 752 quilos por metro quadrado ao ano.

O estudo registrou uma forte aceleração do derretimento no intervalo entre 2013 e 2016. Entre o ano 2000 e o ano 2013 se observou uma redução da massa das geleiras em uma taxa de 1,4% ao ano. Esse número cresceu para 4,3% ao ano entre 2013 e 2016, variação que os pesquisadores atribuíram à influência do forte El Niño em 2015/16.

As geleiras do Peru se encontram em um processo de dramática recessão. Em consequência, o país no futuro breve terá de lidar com os impactos socioeconômicos ligadas à disponibilidade de água na estação seca.

A ampliação do monitoramento é fundamental para ampliar o conhecimento científico das geleiras tropicais, alertou o estudo. Ele poderá subsidiar a elaboração de políticas e medidas voltadas ao gerenciamento de recursos hídricos no país, bem como na prevenção de outros potenciais danos socioeconômicos.

Mais informações: Seehaus, Thorsten, et al. “Changes of the tropical glaciers throughout Peru between 2000 and 2016–mass balance and area fluctuations.” The Cryosphere 13.10 (2019): 2537-2556.
Imagem: Unsplash/ Sergei Akulich

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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