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Perda de gelo da calota polar da Groenlândia em discussão

A contribuição da Groenlândia para o aumento do nível do mar aumentou mais de seis vezes desde 1992. Dois mecanismos estão envolvidos na diminuição do volume total de gelo da calota polar da Groenlândia: o derretimento da superfície das geleiras e a velocidade com que elas se movem em direção ao mar, onde se quebram e se fragmentam na forma de icebergs.

O fluxo da calota polar em direção ao oceano é determinado pelo atrito entre a geleira e o substrato rochoso sobre o qual ela se apóia. A velocidade do fluxo aumenta na época do verão, quando a água derretida na superfície drena para a base da geleira, diminuindo o atrito entre o gelo e a rocha. Mas estudos sugeriam haver uma auto-regulação da velocidade durante o inverno, compensando o ocorrido durante os meses de calor. Em escalas de tempo plurianuais, esses estudo argumentavam que a tendência seria de redução do fluxo.

De fato, foi observada recentemente uma desaceleração no fluxo das geleiras no sudoeste da Groenlândia, parecendo corroborar a hipótese da auto-regulação. Todavia, o tema é fonte de debate científico, havendo outra hipótese em avaliação. Alguns estudos indicaram que em diversas áreas da Groenlândia, o substrato sobre o qual o gelo desliza é constituído por sedimentos mais macios do que a rocha.

Nesse caso, é a camada de sedimentos que controla o atrito entre a base da geleira e o solo. Quando água da superfície drena até a base, ela interfere nas características da camada de sedimentos, tornando-o mais ou menos escorregadio. Durante o verão, a água torna a camada mais escorregadia, e a velocidade aumenta. No inverno, a camada se torna mais espessa, e a velocidade diminui.

A grande diferença entre as duas hipóteses se verifica em longo prazo. No caso do controle do atrito pelos sedimentos, a redução ocorrida no inverno deixa de compensar a aceleração da velocidade durante o verão, e as geleiras passam a se mover mais rápido em direção ao oceano. A consequência seria o agravamento da diminuição do volume de gelo da calota polar da Groenlândia com o futura aquecimento global.

A fim de verificar a hipótese dos sedimentos, um time internacional de pesquisadores realizou observações em uma sessão da calota polar da Groenlândia. Utilizando a técnica de reflexão sísmica, eles puderam caracterizar as condições do solo localizado debaixo da placa de gelo. A partir dos dados obtidos em diversos pontos de coleta, os pesquisadores realizaram uma análise do fluxo no contexto da bacia de drenagem da geleira.

Os resultados mostraram que as duas hipóteses – de auto-regulação e de sedimentos – são simplistas e não descrevem apropriadamente as dinâmicas do fluxo das geleiras. O tipo de substrato pode variar no espaço e no tempo, bem como a influência da água derretida na camada de sedimentos depende do volume, pressão, recorrência, entre outros fatores. A auto-regulação como regra geral não possui validade.

Para a área de estudo, o modelo computacional projetou em longo prazo uma aceleração do fluxo em direção ao oceano. Contudo, os pesquisadores ressaltaram a necessidade de maior informação sobre as características geográficas e físicas da camada de sedimento na base da calota polar da Groenlândia. Só assim será possível melhor avaliar a resposta  das geleiras ao aquecimento global.

Mais informações: Seismic evidence for complex sedimentary control of Greenland Ice Sheet flow
Imagem: NASA / Michael Studinger

 

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