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Pastoreio tradicional como estratégia de adaptação

O pastoreio tradicional pode ter retardado o processo de desertificação ocorrido no norte da África entre 6 e 7 mil anos atrás, sugeriu estudo de pesquisadores de universidades do Reino Unido. O pastoreio teria contribuída para retardar uma tendência natural de mudança do clima.

Entre aproximadamente 14.700 e 5.500 anos atrás, durante a transição da última era do gelo para o atual período interglacial, verificou-se o Período Úmido Africano. As chuvas de verão penetravam muito mais no interior do norte da África, promovendo condições úmidas na região.

Registros paleoclimáticos indicam um ambiente tropical se estendendo até a latitude 20° N, no que é hoje a região do Sahel. Florestas do Sudão e pastagens podiam se estender ainda mais ao norte, até pelo menos a latitude 28 ° N, atualmente dominada pelo deserto do Saara.

O gráfico superior mostra a reconstrução das condições hidrológicas no norte da África. Linhas grossas mostram condições úmidas, linhas finas, condições semi-áridas, e linhas tracejadas, condições áridas. O gráfico de baixo mostra a densidade de achados arqueológicos em diferentes regiões do norte da África, o que pode ser usado como indicador da população existente. Fonte: figura 2 do estudo.

As mudanças climáticas permitiram que o Sahel sustentasse uma vida biológica mais diversa – como, entre outros, elefantes, crocodilos e peixes.

Segundo o estudo, a visão anterior considerava o pastoreio de subsistência como um fator de degradação ambiental. Ele levaria ao sobre-pastoreio, à alteração de habitat e à competição de recursos com a vida selvagem. Tal visão teria sido absorvida pelo ambientalismo do século XX devido, em parte, ao processo histórico do colonialismo.

Baseado nessa visão, uma das teorias sustentava que a desertificação do Sahel e do Saara teria sido desencadeada pela atividade do pastoreio, há cerca de 5.500 anos atrás.

A questão não se limita ao campo teórico. Os pesquisadores ressaltaram que a visão negativa do pastoreio serve de embasamento para o modo como as comunidades tradicionais são percebidas e, particularmente, para a elaboração de políticas ecológicas e econômicas, locais e regionais.

Pesquisas recentes apontaram que a alteração climática no norte da África ocorreu de forma progressiva, ao longo de milhares de anos. As condições climáticas se transformaram de úmidas para áridas primeiro nos pontos mais ao norte, e a partir daí em direção ao sul.

O estudo submeteu a hipótese de influência humana no processo de desertificação a uma rigorosa análise quantitativa. Em primeiro lugar, investigou-se, por meio de observações e de um modelo climático, se o Período Úmido Africano terminou mais cedo do que o esperado.

Também se examinou as características do pastoralismo primitivo na África, descrevendo o modo como a atividade interagia com a paisagem.

Os resultados sugeriram que as condições para a alteração climática no norte da África se tornaram mais favoráveis entre 6.000 e 7.000 anos atrás. Todavia, as evidências mostram que o colapso ecológico da região se deu pelo menos 500 anos depois do que indicado para as condições naturais.

Os pesquisadores contestaram a narrativa de que as ações humanas no passado levariam à superexploração ou à degradação do meio ambiente. No caso africano, em vez de intensificar, a atividade de pastoreio pode ter retardado a transição entre ambiente úmido e árido.

Dessa forma, o estudo ressaltou para a sustentabilidade do pastoreio em bases tradicionais. As práticas indígenas africanas teriam sido desenvolvidas como uma adaptação das comunidades às mudanças climáticas ocorridas com o fim do Período Úmido.

Da mesma forma, promover e melhorar a prática do pastoreio sustentável pode representar uma alternativa vital para a adaptação ao aquecimento global do presente.

Mais informações: Pastoralism may have delayed the end of the green Sahara
Imagem: Unsplash/ Frederik Löwer

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