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O que são as mudanças climáticas?

Apesar da popularidade, o termo “mudanças climáticas” apresenta diversas definições, sendo na maioria das vezes empregado de forma confusa. Mesmo artigos e relatórios científicos geralmente não trazem uma definição clara do que são as mudanças do clima.

Esse problema se deve, em grande medida, ao fato de que existem pelo menos duas diferentes definições de Clima. Em uma delas, o Clima constitui a caracterização dos padrões do Tempo ao longo de um determinado período e lugar. Na outra, o Clima é o Sistema Climático.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês – oferece um bom exemplo. Ele define mudança climática como uma alteração de longo prazo, tipicamente décadas ou mais, na média e/ou na variabilidade das propriedades do Clima (IPCC, 2013).

Essa definição faz referência ao Clima como caracterização dos fenômenos meteorológicos do Tempo.

Todavia, o IPCC afirma que a mudança climática pode ser causada por processos internos naturais ou por fatores externos (IPCC, 2013). A separação entre interno e externo só faz sentido quando se aborda o Clima como o Sistema Climático.

Portanto, para compreender melhor o que são as mudanças climáticas, deve-se caracterizar o seu significado tendo em conta as distintas definições de Clima.

O Clima está em constante alteração

Na perspectiva meteorológica, o Clima é entendido como naturalmente inconstante. Os fenômenos meteorológicos do Tempo são processos dinâmicos que estão sempre em mudança. Dessa forma, o Clima – a análise estatística do Tempo – também.

Assim, a mudança climática engloba distintos modos de variação climática. Segundo Nota Técnica da Organização Mundial de Meteorologia – OMM (WMO, 1971), existem quatro principais tipos de variação do Clima:

  • tendência climática: trata-se do aumento ou da diminuição gradual das variáveis climáticas médias durante um período de tempo. Um exemplo seria a redução da média das chuvas em uma região ao longo de uma década em comparação com a década anterior;
  • flutuação climática: qualquer tipo de mudança sistemática, regular ou irregular, que não se encaixa como tendência ou descontinuidade. Pode se manifestar de duas maneiras –
    • oscilações: quando as variáveis climáticas flutuam gradual e suavemente entre valores máximos e mínimos sucessivos;
    • vacilações: quando as variáveis climáticas flutuam alternadamente em torno de dois (ou mais) valores médios, deslocando-se de um para outro em intervalos regulares ou irregulares;
  • descontinuidade: consiste em uma alteração abrupta e duradoura da média de uma variável climática.

A nota técnica da OMM estabelece que mudança climática é um termo geral que abrange todas as formas de inconstância do clima – tanto as tendências quanto as oscilações -, independentemente de sua natureza estatística ou de suas causas físicas.

A definição de mudança climática da OMM não faz diferença entre processos internos naturais e fatores externos.

O Clima como Sistema Climático e suas alterações

Um dos importantes cientistas do clima, Lorenz (1979) ressalta que, no estudo do Sistema Climático, deve-se determinar se as variações observadas foram livres ou forçadas.

Entendida como livres são todas as alterações devidas à dinâmica interna natural do Sistema Climático. Nessa categoria podem ser enquadradas todos os quatro tipos de variação mencionados na nota técnica da OMM.

Por sua vez, a alteração forçada constitui uma resposta do Sistema Climático à interferências originadas de condições externas. Entre estas, incluem-se flutuações na radiação do sol ou em parâmetros orbitais da Terra, bem como fontes capazes de modificar a concentração atmosférica de gases de efeito estufa.

Mas por que a diferença entre variações internas e externas? Porque o foco é a troca de energia entre o Sistema Climático e o espaço. Os fatores externos são aqueles capazes de interferir na quantidade de energia absorvida ou perdida pelo Sistema Climático.

E as variações de longo prazo na quantidade de energia absorvida e perdida pelo Sistema Climático irá determinar a quantidade total de energia que há no interior do sistema. Em resposta à quantidade de energia, os componentes do sistema – entre eles a atmosfera – irão mudar.

É o caso, por exemplo, das eras do gelo. Quando o Sistema Climático entra em uma fase de perda continuada de energia, inicia-se uma glaciação. Com menos energia no sistema, os componentes se modificam.

As glaciações são marcadas pela redução do nível do mar – e, portanto, do volume de água dos oceanos. Em contrapartida, as calotas polares da Antártica e da Groenlândia avançam, e outras calotas de gelo se formam no Hemisfério Norte.

Mas na história geológica da Terra, as glaciações constituem a exceção, e não a regra. Os registros paleoclimáticos indicam que, na maior parte do passado, o Sistema Climático acumulava energia suficiente para manter a superfície terrestre praticamente livre de gelo.

Atualmente, o Sistema Climático atravessa um momento de acúmulo de energia, usualmente conhecido como aquecimento global.

Dessa forma, quando aplicado ao Sistema Climático, o termo mudanças climáticas se refere à alterações na quantidade de energia acumulada pelo sistema e, em consequência disso, às modificações de seus diversos componentes.

De fato, a análise estatística de dados meteorológicos pode revelar tendências em um determinado local e período de tempo, mas isso por si só não diz nada sobre mudanças forçadas ou livres do Sistema Climático.

De acordo com Dahan (2007), “ao tentar detectar a mudança climática (no contexto da variabilidade natural), a informação só pode ser obtida de modelos e não diretamente de observações, como os cientistas freqüentemente enfatizam” (p. 20).

Aqui cabe uma ressalva: à medida que avança o aquecimento do Sistema Climático, e seus componentes se reestruturam, os processos e padrões que dão origem aos fenômenos meteorológicos também mudarão.

As mudanças do Sistema Climático acabarão se expressando por meio da variação das tendências climáticas ao redor do globo. O esforço da ciência do clima tem sido no sentido de melhor compreender como o aquecimento global irá modificar os componentes do Sistema Climático, e como ambos os fatores irão interferir nos fenômenos meteorológicos.

O papel do ser humano

Um último ponto importante é a inteferência humana. Segundo o artigo primeiro da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – UNFCCC, na sigla em inglês -, as mudanças climáticas são:

  • uma mudança de clima que é atribuída direta ou indiretamente à atividade humana que altera a composição da atmosfera global e que é adicional variabilidade climática natural observada ao longo de períodos de tempo comparáveis.

A intenção foi ressaltar que a modificação nos fluxos de energia atuais do Sistema Climático tem origem nas emissões antropogênicas de gases de efeito estufa. As mudanças em curso podem ser limitadas, caso as sociedades optem por agir sobre as atividades responsáveis pelas emissões.

Fontes: 
Dahan, A., 2007. Models and simulations in climate change: historical, epistemo-logical, anthropological and political aspects. Science without Laws: Model Systems, Cases and Exemplary Narratives, p. 184–237.
IPCC, 2013. Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, Cambridge, New York: Cambridge University Press.
WMO, 1971. Technical note n. 79 – Climatic Change, Geneva, Switzerland. [Online] Available at: https://library.wmo.int/pmb_ged/wmo_195.pdf
Imagem: Unsplash/ Timothy Ah Koy

 

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