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O mundo em estado de emergência

O mundo se encontra em estado de emergência devido ao aquecimento global. Os riscos de mudanças abruptas e de larga escala em componentes do sistema climático são agudos, alertou artigo de um grupo internacional de cientistas. É preciso agir agora para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

A existência de limites, a partir dos quais mudanças abruptas e de larga escala de componentes dos sistema climático podem acontecer, é geralmente denominada de pontos de inflexão – ou tipping points, na expressão em inglês. Segundo o artigo, pontos de inflexão são considerados como de baixa probabilidade.

No entanto, pontos de inflexão de componentes do sistema climático ainda não são bem conhecidos pela ciência. E evidências levantadas recentemente tem apontado que mudanças abruptas podem ser mais comuns do que o suposto, e diferentes pontos de inflexão estariam interconectados.

Isso significa que, no caso de se ultrapassar um dos limites, ele poderia desencadear outros, provocando alterações irreversíveis, de grande impacto e longo prazo no sistema climático.

Uma mudança de perspectiva

A forma como o conhecimento sobre pontos de inflexão tem sido retratada nos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês. O conceito foi introduzido no segundo relatório do IPCC, publicado em 2001.

Avaliacao risco de pontos de inflexao por nivel de aquecimento
O gráfico traz a avaliação de risco de ultrapassar pontos de inflexão para cada nível de aquecimento global. Cada barra representa a avaliação do IPCC, à época da publicação do relatório. Fonte: artigo/ IPCC.

Naquela época, aventava-se a possibilidade de ocorrência de pontos de inflexão no sistema climático somente em um cenário de aquecimento superior a 5°C acima dos níveis pré-industriais. Esses cenários se verificarão em trajetórias futuras de médias a altas emissões de gases de efeito estufa.

As investigações a respeito desses fenômenos avançaram desde então. O conhecimento reunido até o momento alterou significativamente a perspectiva atual dos pontos de inflexão. Como aponta o artigo, os dois relatórios mais recentes do IPCC, publicados em 2018 e 2019, incluíram o risco de limites serem alcançados mesmo com aquecimento entre 1°C e 2°C acima dos níveis pré-industriais.

Atualmente, a temperatura média global está 1ºC acima dos níveis pré-industriais. A tendência de aquecimento continuará, uma vez que as emissões não diminuíram e crescem as concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa.

Nem as promessas de redução de emissões, apresentadas pelos países no âmbito do acordo climático de Paris, seriam suficientes para minimizar o risco de mudanças abruptas. Na cada vez mais fictícia hipótese de que os países cumprirão suas metas, as emissões ainda elevariam a temperatura para pelo menos 3ºC acima dos níveis pré-industriais até 2100.

Retração irreversível das calotas polares

Será tarde demais para as grandes massas de gelo do planeta? Limites relacionados às calotas polares da Antártica e da Groenlândia estão muito próximos ou foram ultrapassados. Isso implicará em um aumento irreversível do nível médio do mar.

Em um trecho do oeste da Antártica, na região do Mar de Amundsen, uma pesquisa sugeriu que um ponto de inflexão pode já ter sido ultrapassado. Lá, o aquecimento das águas do mar derrete a base da calota polar, no ponto em que o gelo fica aterrado no substrato rochoso.

A pesquisa identificou que, nesse trecho da calota polar, o recuou do ponto de aterramento do gelo teria se tornado irreversível. Assim, o derretimento continuaria nas próximas décadas. E a perda de gelo no setor teria o potencial de desestabilizar, em um efeito dominó, o restante das geleiras que compõe a calota polar da Antártica em toda a região leste.

Registros paleoclimáticos mostraram que recuos de mesma escala no leste da Antártica, capazes de elevar o nível médio do mar em 3 metros ao longo de séculos ou milênios, ocorreram repetidamente no passado.

O aprofundamento da pesquisa científica trouxe evidências de instabilidades também para trechos no oeste da Antártica.

Na Groenlândia, o derretimento da calota polar tem se acelerado. Avaliações apontaram o risco de perdas irreversíveis do gelo da calota polar para uma temperatura média global 1,5° C acima dos níveis pré-industriais. Tal nível de aquecimento poderá ser alcançado em 2030, a depender das emissões dos próximos anos.

Mais pesquisa é necessária a fim de confirmar e compreender os pontos de inflexão das calotas polares. O lado positivo, segundo o artigo, é a possibilidade de ainda reduzir a velocidade de derretimento das calotas polares. A perda de gelo se intensifica com o nível de aquecimento global. Quanto menos o planeta se aquecer, mais lentamente as calotas polares irão diminuir, e vice-versa.

Biosfera em risco de colapso

Outros exemplos de pontos de inflexão são encontrados na biosfera, abrangendo os diferentes ecossistemas marinhos e terrestres. Entre eles, um dos destaques retratado pelo estudo são os recifes de coral.

A Grande Barreira de Corais da Austrália experimento recentemente episódios recorrentes de branqueamento em massa de corais, levando a taxas alarmantes de mortandade. Em um cenário de aquecimento de 2°C, estima-se que 99% dos corais tropicais ficariam ameaçados.

Outro fundamental ponto de inflexão da biosfera está na Amazônia. Ele diz respeito à possibilidade de perda da floresta tropical, sendo substituída por vegetação do tipo cerrado, sob a influência do aquecimento e, em especial, do desmatamento. O artigo indicou que, de acordo com estimativas, o limite poderia ser alcançado a partir de 20% de desmatamento da floresta – hoje 17% da floresta foi derrubada.

As florestas boreais do subártico, no Hemisfério Norte, atravessam modificações significativas. A região registra uma das maiores taxas de aquecimento. Em resposta, a frequência e intensidade de distúrbios causados por pragas de insetos e por incêndios cresceu.

Os solos congelados do Ártico entram em um novo estágio, no qual o derretimento pode se tornar irreversível. Ricos em matéria orgânica, o derretimento dos solos tem o potencial de liberar grande quantidades de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono – CO2 – e o metano – CH4.

Ligando os pontos

A circulação oceânica e as correntes atmosféricas, ou interferência indiretas, tem a capacidade de interligar pontos de inflexão de diversos componentes do sistema climático, alertou o artigo. Um estudo sobre o tema indicou que cruzar o limite de um componente eleva as chances de cruzar o limite em outro componente.

Mapa de pontos de inflexão e conectividades entre eles
O mapa traz os principais pontos de inflexão de componentes do sistema climático. As setas indicam possíveis conexões entre eles. Os pontos de inflexão são: a) Perda da floresta amazônica, b) perda do gelo marinho do Ártico, c) Redução da AMOC, d) Modificações nas florestas boreais, f) mortandade de recifes de coral, g) derretimento da calota polar da Groenlândia, h) derretimento de solos congelados, i) e j) derretimento da calota polar da Antártica no oeste e leste. Fonte: adaptado do artigo.

Os cientistas argumentaram que essa conexão pode ser observada no presente. A retração do gelo marinho do Ártico tem provocado uma intensificação do calor na região. Em conjunto com o derretimento da calota polar da Groenlândia, eleva-se o influxo de água doce para o norte do Oceano Atlântico.

Com mais água doce, desde meados do século passado, diminuiu-se em 15% a força da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – AMOC, na sigla em inglês -, uma grande circulação do oceano responsável pelo transporte de calor e sal. O ponto de inflexão da Groenlândia, com derretimento acelerado da calota polar, poderia enfraquecer ainda mais a AMOC.

Por sua vez, uma AMOC mais fraca interferiria no sistema de monções da África Ocidental, trazendo secas para a região do Sahel na África, e do leste asiático, além de intensificar as secas na Amazônia e elevar as temperaturas da água ao redor da Antártica.

Efeito cascata global

A velocidade com que a composição gasosa da atmosfera tem sido alterada pelas atividades humanas não tem precedentes na história do planeta. O sistema climático passou por períodos de instabilidade quando as mudanças eram menores e mais graduais.

O aquecimento global em curso se dá em velocidades extraordinárias. Em cerca de 250 anos, elevamos o CO2 atmosférico para níveis observados pela última vez há de quatro milhões de anos atrás.

Ultrapassar pontos de inflexão poderia implicar em liberação de gases de efeito estufa por novas fontes, além das atividades humanas. Entre elas, o artigo listou o derretimento dos solos congelados, que poderiam liberar 100 gigatoneladas de CO2, a conversão da Amazônia em cerrado, liberando 90 gigatoneladas de CO2, ou as transformações das florestas boreais, lançando 110 gigatoneladas de CO2.

Nesse sentido, os cientistas levantam a hipótese um efeito cascata global, em que a quebra de um ponto de inflexão desencadearia consequências que se fariam sentir em todo o planeta. Consistiria talvez no cenário mais extremo do aquecimento global.

Eliminar o risco ligado aos pontos de inflexão exige a drástica redução das emissões de gases de efeito estufa. Alguns limites podem ter sido ultrapassados, enquanto outros estão em vias de ser quebrados. É hora de reconhecer o estado de emergência em que o mundo se encontra e agir.

Mais informações: Lenton, Timothy M., et al. “Climate tipping points—too risky to bet against.” (2019): 592-595.
Imagem: Flickr/ Ash Hogan

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