Press "Enter" to skip to content

O limite do sequestro de CO2 das florestas tropicais

As duas principais florestas tropicais do mundo alcançaram o limite de sua capacidade de sequestro do dióxido de carbono – CO2 – da atmosfera. A conclusão é de um estudo de um time internacional de cientistas. Eles avaliaram o estado atual e futuro da Amazônia e das florestas tropicais africanas.

O CO2 consiste em dos mais importantes gases do efeito estufa. Desde a Revolução Industrial, as concentrações atmosféricas de CO2 tem subido aceleradamente devido às emissões humanas. Maiores concentrações tornam o efeito estufa mais intenso, dando lugar ao aquecimento global.

Esse processo, no entanto, tem sido contrabalançado pelas florestas tropicais. As florestas retiram da atmosfera parte do CO2 emitido pelas atividades humanas. Contribuem, dessa forma, para diminuir a velocidade do aumento do CO2 atmosférico e, com isso, diminuir a velocidade de aquecimento global.

De acordo com o estudo, estima-se que, entre as décadas de 1990 e dos anos 2000, as florestas tropicais representaram metade da absorção global de carbono pelos ecossistemas terrestres. Elas teriam sequestrado cerca de 15% de todo o CO2 emitido pelas atividades humanas no período.

Geralmente, modelos computacionais da vegetação indicam que a capacidade de sequestro de carbono pelas florestas continuará intacta ao longo das próximas décadas. A hipótese era que o aumento do CO2 atmosférico favoreceria as árvores.

Isso porque o CO2 constitui um elemento fundamental para a fotossíntese das plantas. Supunha-se que uma maior disponibilidade de CO2 teria um efeito fertilizador. Em certa medida, esperava-se que as florestas mantivessem sua capacidade de absorção de carbono em sincronia com o aumento do CO2 atmosférico.

Os cientistas decidiram explorar em detalhe essa hipótese. Eles avaliaram as tendências de absorção de carbono a partir de investigação de 244 parcelas de florestas tropicais africanas estruturalmente intactas, distribuídas em 11 países. Combinaram esses dados com informações publicadas na literatura científica sobre 321 parcelas localizadas na Amazônia.

Os resultados apontaram para uma queda no sequestro de carbono das florestas tropicais. Apesar de ambos os continentes – América do Sul e África – registrarem o efeito de fertilização, com maior crescimento de árvores, caiu a capacidade de sequestro de carbono. Em 2010, o estudo estimou que as florestas absorveram somente 6% das emissões humanas de CO2.

Detectou-se que o sequestro de carbono das florestas tropicais da África se manteve intacto nas três décadas anteriores a 2015. Por outro lado, na Amazônia, verificou-se um declínio de longo prazo na capacidade de absorção do CO2. O principal motivo para a divergência entre as florestas sulamericanas e africanas foi a elevação da taxa de mortalidade de árvores na Amazônia.

Todavia, ao analisar as parcelas mais intensamente estudadas das florestas tropicais africanos, descobriu-se uma tendência preocupante. Elas indicam que, após 2010, passou a ocorrer um incremento na perda de carbono pelas florestas devido a um aumento da mortalidade de árvores. Isso indicaria que também na África as florestas estariam alcançando um ponto de saturação.

A fim de explorar essas tendências, os cientistas elaboraram um modelo estatístico da vegetação. Incluíram fatores como o CO2 atmosférico, a temperatura, impactos da seca e outras dinâmicas florestais. Os exercícios com o modelo sugeriram que as florestas africanas enfrentarão um declínio, no longo prazo, na capacidade de absorção de carbono. Já a floresta amazônica ficará ainda mais enfraquecida.

Nesse sentido, de sumidouros de carbono, as florestas tropicais podem se tornam fontes de carbono. A quantidade de carbono liberada para a atmosfera pela decomposição de plantas superaria a quantidade sequestrada através da fotossíntese. Essa transição ocorreria para a Amazônia até 2050.

O estudo concluiu que o pico de sequestro de carbono pelas florestas tropicais se deu na década de 1990. A saturação e o declínio contínuo do sumidouro de carbono das florestas tropicais têm desdobramentos importantes para as políticas climáticas. Em especial, para aquelas orientadas para limitar o aquecimento global.

Fonte: Universidade de Toronto
Mais informações: Hubau, W., Lewis, S.L., Phillips, O.L. et al. Asynchronous carbon sink saturation in African and Amazonian tropical forests. Nature 579, 80–87 (2020).
Imagem: Flickr/ Omer Bozkurt

%d blogueiros gostam disto: