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O elo entre a Amazônia e extremos no sudoeste gaúcho

Nas últimas duas décadas, o sudoeste do Rio Grande do Sul observou um crescimento na frequência de chuvas intensas em Novembro e Dezembro. A tendência poderá intensificar o processo de arenização observado no estado, ressaltou estudo de cientistas brasileiros.

O sudoeste gaúcho apresenta, no bioma Pampas, áreas de pradaria constituídas por solos arenosos e descobertos. Conhecidas como areias, nelas a vegetação não consegue se fixar por causa da dinâmica das dunas, sob a influência do vento e das águas da chuva.

“Nos anos 70/80, o fenômeno ganhou visibilidade nacional em virtude da expansão das culturas de soja (mecanizadas) e, posteriormente, da silvicultura, sendo erroneamente classificado como ‘desertificação'”, explicou Fabio Sanches, um dos autores do estudo e professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora.

O sudoeste gaúcho e os trechos de areia haviam sido alvo da pesquisa de doutorado de Fabio. Ele investigou evidências de mudanças climáticas, em particular ligadas à precipitação, ao longo do século XX. Além de promoveram a movimentação das areias, chuvas intensas também levam à formação de ravinas e voçorocas.

Eventos pluviométricos diários de grande intensidade são comuns na região. Mas ao analisar quase um século de dados climatológicos, o cientista identificou um aumento na frequência e intensidade de eventos de maior magnitude. Em especial durante a transição entre a primavera e o verão e em meados do outono.

O novo estudo dá continuidade à pesquisa de doutorado. O objetivo foi identificar os sistemas meteorológicos – por exemplo, frentes frias, ciclones, ou a influência da Zona de Convergência do Atlântico Sul – associados às tendências das chuvas diárias extremas no sudoeste do Rio Grande do Sul.

O estudo analisou estatisticamente dados de estações climatológicas da Agência Nacional de Águas – ANA -, compreendendo o período entre 1928 e 2017. A variável considerada foi extremos diários de chuva. A associação dos eventos de chuvas intensas com sistemas meteorológicos se baseou na verificação de dados climatológicos e imagens de satélite.

O estudo detectou que dados diários de precipitação alcançaram valores muito mais altos do que aquele considerado extremo. Nos últimos 20 anos da série, registrou-se o crescimento da frequência e intensidade das chuvas extremas no sudoeste gaúcho. A tendência se concentrou em novembro e dezembro, cuja quantidade de dias de chuva intensa subiu.

Os eventos de chuva extrema estiveram ligados à formação de grandes sistemas convectivos da atmosfera. Com origem na Amazônia, a umidade é transportada por correntes atmosféricas de baixa altitude até o Rio Grande do Sul. “Associamos tais eventos à umidade proveniente dos jatos de baixos níveis vindos da Amazônia, os quais são responsáveis pelos Complexos Convectivos de Mesoescala”, disse Fabio Sanches.

Tais sistemas meteorológicos estão sofrendo as influências do desmatamento e das mudanças climáticas. A hipótese dos cientistas é de que o transporte atmosférico de umidade ganha intensidade e magnitude frente à interferência de diversos fatores. Entre eles, o desmatamento da Amazônia, a concentrações de aerossóis na atmosfera, e o aumento das temperaturas do ar e das águas dos oceanos decorrentes do aquecimento global.

“Temos, então, que o desmatamento altera o processo de reciclagem das chuvas na Amazônia e, por sua vez, a dinâmica atmosférica influencia no transporte de umidade para o sudeste da América do Sul, manifestando-se sob a forma de precipitações intensas – os eventos extremos”, afirmou Fabio.

A mudança no padrão de chuvas mais intensas traz consequências para o processo de arenização. Pode expandir a erosão, bem como o transporte e a deposição de material arenoso, agravando o problema ambiental do sudoeste gaúcho.

O desmatamento da floresta amazônica e as mudanças climáticas provocam interferências no clima em outras parte do país e do mundo. O estudo indicou que isso provavelmente está acontecendo no sudoeste gaúcho. Os resultados podem contribuir para o planejamento de ações de adaptação pela atividade econômica da região – como a agropecuária.

Mais informações: Sanches, F., Verdum, R., Fisch, G., Gass, S.L.B. and Rocha, V.M. (2019) Extreme Rainfall Events in the Southwest of Rio Grande do Sul (Brazil) and Its Association with the Sandization Process. American Journal of Climate Change, 8, 441-453
Imagem: adaptado do figura 2 do estudo – foto de areal no município de São Francisco de Assis, RS

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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