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O desafio de desvincular economia e energia

Desde 2005, quase todos os países da União Européia registraram crescimento econômico, enquanto que a intensidade energética diminuiu. O fato levou a Agência Ambiental Européia a afirmar que o continente havia alcançado a dissociação entre economia e energia.

Mas estudo de cientistas da Suíça aponta que a desvinculação é mais virtual do que real, devendo-se a mudanças estruturais em vez de ganhos na eficiência energética.

De acordo com o estudo, evidências empíricas de longo prazo indicam uma relação diretamente proporcional entre o desenvolvimento econômico e a quantidade de energia utilizada. Todavia, o setor energético constitui a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa. Com vistas à mitigação do aquecimento global, muitos países se lançaram ao desafio de desvincular o uso de energia do crescimento econômico.

Dois fatores influenciam a diminuição do uso de energia por unidade do Produto Interno Bruto – PIB, como tem sido observado na Europa desde 2005. O primeiro fator é o aumento da eficiência energética, reduzindo-se o consumo de energia primário e final. Para levar a uma dissociação entre economia e energia, a redução na intensidade energética dos usos teria de ser constante e superior ao aumento da demanda provocado pelo crescimento.

O segundo fator são mudanças estruturais na economia. De um lado, a desindustrialização provoca o deslocamento de indústrias intensivas em energia para outros países. De outro lado, a terceirização leva ao crescimento em termos monetários do setor de serviços, que produz mais valor agregado por unidade de consumo final de energia.

Em ambos os casos, a energia uma vez produzida diretamente no interior do país passa a ser importada na forma de energia incorporada em bens manufaturados e serviços. Em tais situações, a atividade econômica continua dependente de um determinado nível de intensidade energética. Na prática, não há um ganho de eficiência. O que ocorre é a transferência da geração de energia para além dos limites territoriais do país.

Em toda a Europa, verifica-se um padrão comum de desindustrialização. Mudanças estruturais estão em curso, e os países incrementam as importações à medida que a indústria doméstica diminui e a renda aumenta. Nesse contexto, os cientistas buscaram quantificar a contribuição das mudanças estruturais na intensidade energética e no consumo de energia. Avaliaram o caso específico da Suíça.

Foi constatado que a energia incorporada nas importações do país subiu em 80% entre 2001 e 2011. Como consequência, a energia incorporada nas importações passou de 45% para 81% do total de energia consumido pela economia suíça. Apesar de todos os esforços e medidas de eficiência, a dependência energética do país aumentou.

Outra implicação importante diz respeito à segurança energética. O estudo afirma que, no caso suíço, a segurança do fornecimento de energia está atrelada tanto à produção nacional de energia e à importação de combustíveis e de eletricidade quanto à importação de produtos manufaturados. Os cientistas alertam que essa relação de inter-dependência não tem sido devidamente reconhecida.

A intensidade energética não reflete adequadamente o consumo de energia por unidade do PIB, constituindo um indicador inadequado. Efeitos de mudanças estruturais não são levados em consideração. Políticas nacionais precisam combinar eficiência e segurança energética. Quanto mais uma economia se baseia em energia incorporada nas importações, mais atenção deve ser dada aos vínculos entre o comércio, a indústria e as políticas energéticas.

Mais informações: Decoupling energy use and economic growth: Counter evidence from structural effects and embodied energy in trade
Imagem: Unsplash/ NASA

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