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O ameaçador mundo novo do Ártico

O Ártico atravessa um rápido processo de mudanças climáticas, com impactos sobre a infraestrutura e a vida das pessoas. Os impactos irão se agravar no futuro, a não ser que se limite o aquecimento global e se invista em medidas de adaptação, apontou estudo de um time de cientistas dos Estados Unidos.

As alterações registradas no Ártico não se limitam à região. Segundo o estudo, à medida que solos congelados, geleiras, o gelo marinho e a calota polar da Groenlândia derretem e encolhem, essas modificações repercutem em todo o mundo.

Os solos congelados ocupam aproximadamente entre 20 a 25% do hemisfério norte. Eles se caracterizam por solos que permanecem congelados por dois anos consecutivos ou mais. O aumento das temperaturas no Ártico tem provocado o degelo generalizado.

A infraestrutura regional sofre os impactos dessa alteração. O derretimento dos solos causa danos em prédios, estradas e serviços públicos, o que deve crescer em um cenário de altas emissões de gases de efeito estufa.

O derretimento e decomposição da matéria orgânica dos solos pode liberar grandes quantidades de dióxido de carbono – CO2 – para a atmosfera. Assim, intensificaria o aquecimento em todo o mundo. Alguns cenários indicam a possibilidade de emissões de dezenas a centenas de bilhões de toneladas de carbono até 2100.

A massa de gelo do Ártico está encolhendo. Além da calota polar da Groenlândia, as geleiras do Alasca, Canadá, Rússia, Islândia e outros países nórdicos também estão perdendo massa. O processo se acelerou durante o século passado devido ao aquecimento global.

O resto do mundo sofre os efeitos do recuo das massas de gelo árticas na forma do aumento do nível do mar. Entre 2003 e 2015, estima-se que a perda de gelo respondeu por cerca de 1,2 mm de aumento do nível médio do mar por ano.

A região é e continuará a ser a maior contribuinte para o aumento do nível do mar, cujos impactos atingem as zonas costeiras em todos os continentes.

Mais de 60% do volume de gelo marinho do Ártico desapareceu em somente 30 anos. Como resultado, partes do Alasca e da Sibéria observam acelerada erosão costeira. O albedo da região também diminui. Sem a cobertura brilhante do gelo, o oceano ártico absorve 9 vezes mais radiação solar durante o verão.

A energia adicional absorvida pelo oceano faz subir a temperatura do ar do Ártico, em especial durante o outono e o inverno. Com isso, o aquecimento global é amplificado na região.

Os diferentes elementos do Ártico também influenciam uns aos outros, alertaram os cientistas. Por exemplo, a retração do gelo marinho pode acelerar o derretimento tanto da calota polar da Groenlândia quanto dos solos congelados.

A modificação dos solos congelados, por sua vez, leva a uma intensificação do ciclo hidrológico na região. O escoamento de cursos d’água subiu significativamente nas últimas décadas. As alterações na paisagem também interferem em correntes eólicas e oceânicas, no ecossistema marinho, no ciclo de nutrientes, entre outros.

Além de maiores emissões de gases de efeito estufa e do aumento do nível do mar, pesquisas recentes estão discutindo como a mudança do Ártico afeta outras regiões do planeta. Uma das hipóteses trata de interferências em tempestades e eventos climáticos extremos em zonas de latitudes médias de todo o hemisfério norte.

A hipótese sugere que mudanças no Ártico estão intensificando eventos climáticos extremos, que teriam se tornado mais frequentes na Ásia, no Canadá, na Europa e nos Estados Unidos. Porque o Ártico se aquece mais rapidamente do que as latitudes mais baixas, o gradiente de temperatura entre o pólo e o equador diminui.

O gradiente de temperatura menor enfraquece a corrente oeste-leste de ventos atmosféricos – chamada, em inglês, de jet stream -, que corre por sobre o hemisfério norte. Em consequência, a corrente de ventos fica mais ondulada e propensa a permanecer estacionada em um mesmo lugar. Isso favorece a ocorrência prolongada de tempo seco e quente, ou então frio e tempestuoso.

As mudanças registradas no Ártico são sem precedentes, ressaltou o estudo. A região precisará implementar medidas de adaptação aos impactos atuais e àqueles que inevitavelmente virão no futuro. E somente reduzir em curto prazo os gases de efeito estufa poderá diminuir rapidamente as alterações no Ártico.

Mais informações: Moon, T. A.Overeem, I.Druckenmiller, M.Holland, M.Huntington, H.Kling, G., et al. ( 2019). The expanding footprint of rapid Arctic changeEarth’s Future7.
Imagem: figura 1 do estudo – mapa indicando as geleiras e a calota polar da Groenlândia (em amarelo), a área ocupada por gelo marinho durante o verão (em branco) – comparado com a área 30 anos atrás (linha verde), e as regiões de solos congelados (em rosa)

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