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Nordeste alternou climas úmidos e secos no passado

A região nordeste do Brasil experimentou diferentes regimes de chuva ao longo dos últimos 2.300 anos. Entre 1580 e 1900, a região possuía um clima mais úmido, identificou estudo de um time de pesquisadores brasileiros e internacionais.

Abrigando uma grande população, e com problemas atuais de disponibilidade hídrica, o nordeste consiste em uma das áreas mais vulneráveis às mudanças climáticas do continente.

Durante as últimas décadas, o nordeste do Brasil registrou, de acordo com o estudo, uma queda significativa da quantidade de chuvas. A região experimenta um processo de desertificação mais rápido do que em qualquer outra parte da América do Sul.

Mapa de variações sazonais da zona de convergência intertropical
O mapa superior traz a localização da ZCIT durante os meses de março a maio. O mapa superior, a posição durante os meses de junho a agosto. As setas indicam a direção dos ventos. Fonte: adaptado da figura 1 do estudo.

Mas os fatores por trás dessa tendência ainda não estão claros. Um deles consiste na posição da Zona de Convergência Intertropical – ZCIT -, um cinturão tropical de nuvens tropicais formado sobre o Oceano Atlântico. A posição da ZCIT varia latitudinalmente com as estações, trazendo chuvas para o nordeste.

Outros fenômenos climáticos ligados à interação entre o oceano e a atmosfera também exercem influência nas chuvas do nordeste. Um exemplo é Oscilação Sul do El Niño – OSEN.

Pesquisas paleoclimatológicas anteriores detectaram que, no passado, as regiões das costas tropicais do Atlântico experimentaram variações climáticas. O clima do passado era diferente do clima presente. No entanto, usualmente se atribuía essas mudanças apenas a deslocamentos na posição da ZCIT.

Faltavam dados e registros paleoclimatológicos locais que caracterizassem melhor as condições ambientais do passado e suas possíveis causas. Para investigar essa questão, os pesquisadores coletaram sedimentos da Lagoa do Boqueirão, no município de Camocim, no estado do Ceará.

A partir da análise de isótopos de hidrogênio de matéria orgânica da caatinga presente nos sedimentos, foi possível reconstruir as mudanças na precipitação experimentadas pela região nos últimos 2300 anos.

O estudo detectou três principais períodos com regimes de precipitação distintos. O primeiro ocorreu entre 500 AC e 420 DC e foi predominantemente úmido. Em seguida tem início uma abrupta e longa aridificação, cuja duração se estendeu entre 500 e 1.300 anos atrás.

O terceiro período corresponderia à chamada pequena era do gelo, entre 1580 e 1900, quando o hemisfério norte do planeta experimentou temperaturas mais frias. Nesse período, as condições úmidas retornaram ao nordeste brasileiro.

O deslocamento da ZCIT não poderia explicar as modificações no regime de chuvas regional. Os pesquisadores sugeriram, como outros fatores, as variações na temperatura da superfície do Atlântico e os padrões dos ventos alísios do sudeste da bacia tropical do Atlântico Sul.

Projeta-se que o aumento das temperaturas no hemisfério norte, causado pelo aquecimento global, poderá interferir na posição da ZCIT, com repercussões para o clima no nordeste do Brasil. Não é, contudo, o único fator em alteração que poderá trazer consequências.

Mais informações: Utida, Giselle, et al. “Tropical South Atlantic influence on Northeastern Brazil precipitation and ITCZ displacement during the past 2300 years.” Scientific Reports 9.1 (2019): 1698.
Imagem: Edilson Moura

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