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Nível pré-industrial e cenários futuros do aquecimento global

O acordo de Paris, negociado na capital francesa em 2015 (e entrando em vigor em 2016), estabeleceu o objetivo de manter o aquecimento global no século XXI abaixo de 2 graus Celsius em comparação com os níveis pré-industriais, mas envidando esforços para que o aumento fique abaixo de 1,5 graus Celsius. Estudo publicado recentemente no jornal científico Nature Climate Change argumenta que o acordo climático não se baseou em uma definição clara do que seja ‘nível pré-industrial’, o que traz sérias implicações à probabilidade de exceder a meta estabelecida.

Segundo o estudo, o quinto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC na sigla em inglês – trouxe estimativas a respeito da probabilidade da temperatura média global aumentar em 1,5 e 2 graus Celsius acima dos níveis do período entre 1850 e 1900. O relatório foi utilizado pelo acordo de Paris para estabelecer a meta de 1,5 e 2 graus Celsius.

O problema é que no relatório do IPCC não há uma discussão apropriada sobre qual período representaria melhor o nível pré-industrial. A revolução industrial data de 1750, e com ela a emissão de gases de efeito estufa e o correspondente aumento de suas concentrações atmosféricas. Dessa forma, a linha de base do período entre 1850 e 1900 desconsidera um século de interferência das atividades humanas na temperatura média global do planeta.

Todavia, estabelecer uma definição do nível pré-industrial, considerando o período anterior ao século XIX, não é tarefa fácil. Escassas medições instrumentais da temperatura existem, pois foi no século XIX que o uso de instrumentos meteorológicos se popularizou. Além disso, flutuações naturais da temperatura global ocorreram em todo o último milênio, com alterações ao longo de décadas ou mesmo de longo termo. Dessa forma, um único valor para a temperatura média global não representaria essas flutuações.

A partir de reconstruções da temperatura global e de modelos climáticos, os pesquisadores adotaram o período entre 1401 e 1800 como referência do nível pré-industrial, buscando determinar quanto mais quente ou mais frio ele seria em comparação com o período entre 1850 e 1900. Os resultados mostraram que o fim do século XIX poderia tanto ser considerado como uma estimativa razoável do nível pré-industrial quanto subestimar em até 0,2 graus Celsius o aquecimento observado.

Aplicando os resultados a diferentes cenários de aquecimento global para o século XXI, os pesquisadores calcularam a probabilidade de se extrapolar a meta  estabelecida pelo acordo de Paris. Nos cenários de baixas e médias emissões de gases de efeito estufa, a probabilidade de se ultrapassar 1,5 graus Celsius varia entre 61% e 88%, dependendo de qual período é adotado como pré-industrial. No caso da meta de 2 graus Celsius, varia entre 25% a 30% em um cenário de baixas emissões, e 80% a 88% em um cenário de médias emissões.

Dessa forma, as metas estabelecidas no acordo climático de Paris provavelmente subestimam o aumento da temperatura média global, ao considerar como referência do nível pré-industrial o período entre 1850 e 1900. Os pesquisadores alertam para a necessidade de se produzir uma definição apropriada do que seja o nível pré-industrial da temperatura média global, de forma a melhor orientar os trabalhos científicos e a proposição de políticas ligadas ao tema.

Mais informações: Importance of the pre-industrial baseline for likelihood of exceeding Paris goals
Imagem: Pixabay

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