Press "Enter" to skip to content

O nexo entre água, energia e alimento no Brasil

A relação entre água, energia e alimentos é um dos maiores desafios ambientais contemporâneos. A interação entre esses três elementos não tem sido apropriadamente compreendida e gerida no Brasil, apontou estudo de um time internacional de cientistas.

A consequência é que o país convive com o desmatamento em grande escala e mudanças no uso da terra, com a escassez de água e de energia, e com uma maior vulnerabilidade às mudanças climáticas.

Segundo o estudo, impulsionada por fatores como o crescimento da renda ou a industrialização, a demanda global por energia, água e alimentos deverá crescer a patamares cada vez mais superiores à capacidade de suporte do planeta.

A demanda eleva a pressão sobre os recursos naturais em países tropicais exportadores de matéria-prima,  como no caso do Brasil, fomentando a degradação ambiental. O problema não constitui apenas de um problema de gestão ou falha do cumprimento da política ambiental. Ele resulta da complexa interconexão entre os sistemas da água, da energia e dos alimentos.

O Brasil oferece um dos melhores exemplos do nexo entre água, energia e alimentos, afirmaram os cientistas. O país constitui uma das regiões mais expostas aos impactos do aquecimento global. Sua economia é pautada pela exportação de mercadorias agrícolas e energéticas. Tanto alterações no clima quanto mudanças econômicas estão ligadas à degradação ambiental e social.

A degradação afeta os sistemas da água, da energia e dos alimentos, podendo ser agravadas pelas deficiência na governança. Os desafios brasileiros do nexo entre os três elementos incluem a transformação em larga escala no uso e ocupação do solo, o desmatamento, a escassez de água e crises de energia.

E impactos no país provavelmente se farão sentir em todo o mundo, seja por interferências no sistema climático, no suprimento global de alimentos, ou na emissão de gases de efeito estufa.

Mapa do Brasil de projeções de chuva e temperatura
Os mapas apresentam as projeções de mudança nas chuvas (direita) e na temperatura (esquerda) até 2100 para cenários de baixas e altas emissões de gases de efeito estufa. Fonte: figura 1 do estudo.

Para compreender melhor o nexo entre água, energia e alimentos no Brasil, o estudo identificou o contexto das mudanças ambientais e econômicas brasileiras. Em seguida, foram realizados quatro estudos de caso a respeito do nexo e suas implicações.

Finalmente, avaliaram-se as leis e políticas existentes sobre os três temas, de modo a investigar o desempenho de sua aplicação e suas deficiências.

A relação entre água e energia terá impactos sobre o sistema elétrico brasileiro, atualmente baseado na geração de hidroeletricidade. O crescimento da demanda exigirá investimentos na expansão da capacidade instalada. Mas as projeções sugerem padrões de chuva no futuro menos favoráveis, elevando a possibilidade de escassez de água.

Assim, a dependência excessiva na energia de hidrelétricas pode provocar insegurança energética. Ou então o incremento de outras fontes, sendo que, se a opção recair em termelétricas movidas à combustíveis fósseis, elevam-se as emissões, acentuando o aquecimento.

A energia e os alimentos se interligam por meio do incentivo à produção de biocombustíveis. A demanda impulsionará uma expansão na área ocupada por esse tipo de cultivo. As implicações abrangem, entre outros, a competição com a produção de alimentos, maior pressão sobre o recurso natural, maior consumo de água e desmatamento.

As mudanças climáticas afetarão o nexo entre água e alimentos, como, por exemplo, na modificação do padrão das chuvas, no aumento da temperatura e na intensificação de eventos extremos. A produtividade agrícola pode sofrer impactos na produtividade. Movimentos migratórios ocorreriam em regiões nas quais a agricultura for severamente afetada.

O desmatamento no Brasil reúne elos entre os três elementos: água, energia e alimentos. A demanda por culturas para exportação, especialmente a soja, incentivará uma expansão da fronteira agrícola. Combinada com a prática da grilagem, a expansão da agricultura para exportação poderá incentivar o desmatamento.

Por sua vez, a alteração do ciclo hidrológico causada pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento reduzirá o rendimento agrícola. A necessidade de novas áreas de cultivo para exportação subiria, o que poderia trazer uma competição com culturas de alimentos para consumo interno e também maiores taxas de desmatamento.

O estudo concluiu que as leis e políticas brasileiras, embora tratem do tema em certa medida, ainda não consideram totalmente os complexos nexos entre os sistemas da água, energia e alimentos. No Brasil, as políticas de gestão de um tema podem afetar os demais de maneiras às vezes imprevisíveis. É preciso desenvolver uma abordagem mais integrada.

Mais informações: MERCURE, J.-F. et al. System complexity and policy integration challenges: The Brazilian Energy-Water-Food Nexus. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v. 105, p. 230-243, 2019.
Imagem: adaptado da Figura 6 do estudo – gráfico dos principais cultivos de exportação brasileiros (à esquerda) e principais países importadores de soja (à direita)

%d blogueiros gostam disto: