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Não há debate sobre o aquecimento global

Não há dúvidas ou debate na comunidade científica a respeito da ocorrência do aquecimento global e de suas causas. O sistema climático está mudando, e os impactos das mudanças afetam – e continuarão a afetar no futuro – as sociedades, alertou artigo de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE.

O artigo foi uma resposta a uma recente manifestação de um grupo de negacionistas. Ele foi entregue ao ministro brasileiro de Ciência e Tecnologia, ressaltando “as consequências de negar a existência de um processo tão crítico quanto as mudanças climáticas antropogênicas”.

De acordo com os cientistas, desde a década de 1950, o número de evidências do aquecimento global registradas pela ciência tem crescido exponencialmente. E não são poucas. Uma breve consulta a fontes de referência mostra que milhões de artigos científicos sobre o tema já foram publicados.

Os avanços da comunidade científica ganham notória publicidade por meio dos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês. Os relatórios reúnem e sintetizam a literatura científica disponível sobre dezenas de tópicos relacionados ao aquecimento global e às mudanças climáticas.

Dessa forma, o IPCC apresenta o estado atual do conhecimento científico sobre o tema. Elaborado de forma voluntária por centenas de cientistas do mundo todo, os relatório do IPCC ainda passam por uma ampla revisão da sociedade civil e de representantes de diversos países.

A ciência é taxativa: o aquecimento global está causando impactos, que tendem a se tornar cada vez mais graves no futuro. Segundo o artigo, negar que as emissões humanas de gases de efeito estufa estão levando ao aquecimento global “contradiz os resultados em milhares de estudos publicados em todo o mundo por cientistas de diferentes nacionalidades e trabalhando em diferentes instituições, com contribuições importantes de pesquisadores brasileiros”.

Daí o nome de negacionistas. Essas pessoas buscam apresentar argumentos como se fossem baseados no conhecimento científico atual, mas que, de fato, contradizem as descobertas e teorias da ciência. E não se trata de desconhecimento, uma vez que os relatórios do IPCC ganham plena divulgação e são públicos.

Um dos exemplos dos argumentos do negacionismo diz respeito à afirmação de que o clima está sempre mudando e, portanto, as alterações observadas consistem apenas em variabilidade natural. Com isso, em vez de negar as inúmeras evidências do aquecimento global, elas são atribuídas a uma oscilação natural.

Utilizado dessa forma, trata-se de um argumento de má-fé. Isso porque o estudo da variabilidade natural constitui em um dos pilares da ciência, servindo de base para a construção do entendimento a respeito do atual aquecimento global.

A partir de pesquisas sobre a história geológica da Terra – a paleoclimatologia -, revelou-se como o sistema climático tem se comportado ao longo de milhões de anos. Ao mesmo tempo, os registros paleoclimáticos contribuíram para identificar os fatores por trás das mudanças ocorridas no passado. Como, por exemplo, nos ciclos das glaciações.

A variabilidade interna do sistema climático, bem como os fatores externos que influenciam sua dinâmica, componentes e processos, tem sido alvo de detalhados estudos. Inclusive a variabilidade interna de curto prazo, característica da presente configuração do sistema climático, como, entre outros, a Oscilação Multi-decadal Atlântica – AMO, a oscilação Decadal do Pacífico, ou a Oscilação Sul do El Niño OSEN.

Os fatores externos também foram e continuam sendo objeto de pesquisa. É o caso da radiação solar. Outro argumento favorito do negacionismo sugere que as flutuações de curto prazo da luz solar estariam por trás das alterações observadas – por exemplo, do aumento da temperatura média global..

Mas essa é outra variável exaustivamente monitorada e avaliada pela ciência. Ao contrário do que sustenta o argumento negacionista, considera-se que as variações de curto prazo da radiação solar exercem um efeito muito pequeno no sistema climático.

Por outro lado, a ciência também investigou a variação da luz do sol ao longo do tempo geológico – de milhares a milhões de anos. A principal alteração detectada na radiação solar se dá em longuíssimo prazo: ao longo da história geológica da Terra, o brilho do sol subiu em cerca de 25%. A cada 110 milhões de anos, a radiação cresce por volta de 1%.

No entanto, os registros paleoclimáticos evidenciam condições ambientais relativamente estáveis ao longo da história do planeta. O sistema climático não se aqueceu à medida que cresceu a radiação solar. A explicação desse fenômeno passa pelo entendimento das mudanças no efeito estufa.

Portanto, em vez de desmentir o aquecimento global ou o efeito estufa, a variabilidade natural e a flutuação da radiação solar foram peças importantes do quebra-cabeça científico. A partir delas, obteve-se a compreensão do efeito estufa e do aquecimento global.

Ao promover a confusão sobre o tema, ou mesmo ao iludir as pessoas, os argumentos do negacionismo podem se traduzir em sérios prejuízos. Conforme ressalta o artigo, quanto melhor a sociedade e os indivíduos se informam sobre o tema, maiores as chances de se preparem para as consequências.

Em especial no Brasil. Os cientistas lembraram que um dos alicerces da economia do país é o setor primário, responsável por um terço das exportações. As condições do clima exercem um papel central no setor agrícola.

Se nenhuma ação for tomada para o país se adaptar aos futuros impactos das mudanças climáticas, a economia brasileira corre o risco de experimentar danos significativos.

Mais informações: Krug, T., Ometto, J., Aragão, L., & Vinhas, L. (2019). O Brasil e as mudanças climáticas.
Imagem: Unsplash/ Dikaseva

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