As ondas de gelo das geleiras

Um dos efeitos do aquecimento global pode ser a alteração no movimento das geleiras. Ele pode se tornar mais rápido ou até mesmo apresentar descargas súbitas e intensas, feito ondas de gelo.

As geleiras são grandes massas de gelo que se formam nos continentes. Durante o inverno, camadas sucessivas de neve caem e, ao se acumular, compactam-se e se cristalizam, formando gelo. No verão, o aumento das temperaturas causa o derretimento do gelo, e a diferença entre o acúmulo de massa no inverno e a perda de massa no verão irá determinar se a geleira está se expandindo ou diminuindo.

Toda geleira corre feito um rio de gelo. Por causa da gravidade, a massa de gelo acumulada em pontos mais altos do relevo se desloca lentamente para os pontos mais baixos. Diversos fatores influenciam a velocidade e a forma como se dá o movimento das geleiras.

Porque respondem a pequenas mas duradouras alterações nas condições climáticas, as geleiras são consideradas boas indicadoras de tendências e mudanças no clima. Essas tendências podem ser detectadas através do monitoramento de flutuações na extensão, volume e massa das geleiras.

Uma das consequências do aquecimento global é a redução em escala global das geleiras. Na Groenlândia, no oeste da Antártica, no Alasca, nos Andes, na Europa, nos Estados Unidos ou no Himalaia, as geleiras espalhadas pelo mundo atravessam um momento de retração. Mas o efeito não se limita apenas à diminuição da massa de gelo, ele também pode influenciar na forma como essa diminuição ocorre.

Há diversos registros de um fenômeno peculiar. Subitamente, a geleira passa a se deslocar com velocidades elevadas, entre 10 a centenas de vezes mais rápida do que o ritmo normal. Em tais episódios ou surtos, usualmente de curta duração, criam-se ondas de gelo que se deslocam velozmente vale abaixo.

Tais episódios contrariam a teoria comumente aceita de que as geleiras, devido às suas características físicas e às limitações impostas pelo terreno, não seriam capazes de se mover com grandes velocidades. Agora, os cientistas investigam como esses fatores interagem com outros na determinação do fluxo de uma geleira.

Um dos principais suspeitos é a água. No verão, a água proveniente do degelo e da chuva pode penetrar pelas fendas da geleira, escoando até a sua base, onde o gelo encontra o substrato rochoso. Ali, a água pode congelar, liberando calor latente que altera as propriedades do gelo na base da geleira. Ela também pode se acumular sobre a rocha, lubrificando-o e facilitando o deslocamento.

O número de surtos registrados é ainda extremamente reduzido, restringindo-se a apenas 4 pontos geográficos. A expectativa, no entanto, é que os eventos aumentem por causa do aquecimento global. 

Produzido pela revista científica Science, o vídeo abaixo (em inglês) discute o deslocamento das geleiras e a ocorrência de surtos mais velozes e intensos.

Fonte: Science
Imagem: Freeimages