O Aedes Aegypti está se sentindo em casa

O Aedes Aegypti ganhou a batalha contra o governo e a população, afirma artigo de pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais – Cemaden. Astuto, o mosquito se aproveitou das condições urbanas favoráveis e das alterações no clima, adaptando-se rapidamente.

Além da dengue e da chikungunya, o mosquito Aedes Aegypti é também transmissor do vírus da Zika. A doença motivou a Organização Mundial de Saúde a declarar emergência mundial de saúde pública em 2015, uma vez que ela eatá associada à microcefalia – mal formação do cérebro dos fetos. Casos de dengue, chikungunya e zika foram registrados em diversos países do Pacífico, da África, e das Américas.

Em 2016, registros de zika foram confirmados em vinte países das Américas, entre eles o Brasil, a Colômbia, El Salvador, México e Porto Rico. Segundo o artigo, dados de janeiro a outubro do mesmo ano mostram cerca de 10.039 casos de microcefalia relatados no Brasil. Desse total, quase 8.000 foram investigados, confirmando-se 2.106 casos de microcefalia ou alteração no sistema nervoso central, a maioria na região nordeste do país.

Há um conjunto de fatores que influenciam a disseminação das doenças infecciosas pelo Aedes Aegypti. O crescimento e concentração urbana, os movimentos de seres humanos e vetores, as alterações no uso e ocupação do solo, os efeitos do clima na saúde e o desenvolvimento de resistência aos inseticidas favorecem a proliferação do mosquito e a transmissão.

De acordo com o artigo, a formação urbana das cidades brasileiras foi também a construção do habitat ideal para a proliferação do Aedes Aegypti. Isso ocorreu porque as cidades se espalharem em extensão, densidade e ocupação sem controle nem planejamento. A ausência de abastecimento de água e de saneamento multiplicou os pontos de reprodução do mosquito, como tanques e cisternas.

Extremamente importante para a proliferação do Aedes Aegypti é a presença de criadores, locais que reúnem as condições para completar as três primeiras fases de seu desenvolvimento – ovo, larva e pupa. Recipientes domésticos para armazenamento de água oferecem essas condições. A consequência foi a impressionante velocidade com que o inseto ocupou e se adaptou ao novo ambiente.

As falhas no sistema brasileiro de saúde constitui outro fator negativo, ressalta a pesquisadora. A maioria das famílias de baixa renda enfrentam dificuldade para ter acesso ao sistema de saúde e hospitais. Por sua vez, o sistema  é caracterizado por instalações parcialmente operacionais devido a danos ou à falta de profissionais, de equipamentos e de suprimentos.

A tendência é que a situação se agrave com as mudanças climáticas. O artigo menciona que, nas últimas décadas, eventos climáticos extremos vem se tornando mais frequentes, com aumento de episódios de onda de calor, precipitação intensa e seca. O padrão de chuvas tem sido mais irregular, concentrando-se a precipitação em curtos períodos de tempo, separados por períodos quentes e secos.

Parâmetros climáticos afetam o ciclo de vida do Aedes Aegypti. Variáveis ​​como temperatura, umidade e precipitação interferem nas diferentes fases de desenvolvimento do mosquito, que pode ajustar o ritmo de seu ciclo de vida às flutuações do clima. O estágio adulto pode se estender de duas semanas a um mês. Os ovos sobrevivem por mais de um ano em condições de seca, chocando imediatamente uma vez submersos na água. Quanto mais quente a água, menor o tempo de transição do estágio de ovo para o estágio adulto.

O artigo alerta para a necessidade de reformulação das intervenções do governo, fortalecendo a vigilância epidemiológica e priorizando os grupo mais vulneráveis. No caso da zika, é fundamental oferecer acesso à saúde reprodutiva para mulheres grávidas, incluindo tratamento e prevenção em áreas de alto impacto. Mas as medidas no setor de saúde somente serão eficazes se integradas a melhorias na infraestrutura pública e na habitação.

Caso não se enfrente os problemas da urbanização, do sanitarismo, e do sistema de saúde, é possível que o Aedes Aegypti, com as mudanças climáticas, comece a se sentir cada vez mais em casa, como se estivesse com a vida ganha. Bem o contrário de como irão se sentir os moradores das cidades brasileiras no futuro.

Mais informações: Zika Outbreak in 2016: Understanding Brazilian Social Inequalities through Urban Spatial Analysis and their Consequences to Health
Imagem: Pref. de São Paulo – foto do mosquito Aedes Aegypti