Mudanças climáticas e a adaptação das pastagens

As mudanças climáticas poderão ter impactos negativos sobre os sistemas de pastoreio no Brasil, afirma estudo de pesquisadores australianos e brasileiros. O estudo revisou os potenciais impactos nas pastagens e na indústria de gado da Austrália e do Brasil, abordando também medidas de adaptação. Os impactos estarão relacionados ao declínio na produtividade das pastagens e na qualidade da forragem, e o estresse térmico dos animais.

De acordo com o estudo, as pastagens cobrem cerca de 25% da superfície terrestre, representando 50% da biomassa consumida pelos bovinos. Essas regiões estarão expostas às consequências do aquecimento global, como o aumento da temperatura, a alteração no ciclo hidrológico, ou o aumento da freqüência, duração e magnitude de eventos extremos.

No Brasil, 209,1 milhões de cabeças de gado estão distribuídas em 167 milhões de hectares de pastagens, com uma média de 1,25 cabeças por hectare. Em 2015, a produção bovina brasileira foi de 9,56 milhões de toneladas, sendo 1,88 milhões para exportação, o equivalente a quase 20% da produção mundial. Apesar de ocorrer em todo o país, a produção está concentrada na região Centro-Oeste. 

Atualmente, o principal fator de risco para a agropecuária brasileira é o clima e sua variabilidade. Segundo o estudo, estima-se que aproximadamente 80% da variação na produtividade agrícola brasileira se deva à flutuação climática sazonal e interanual. Os fatores responsáveis pelos outros 20% seriam questões econômicas, políticas, de infraestrutura e sociais.

As mudanças climáticas deverão influenciar a flutuação climática sazonal e interanual. Modelos climáticos projetam cenários de aumento da temperatura média no Brasil entre 2 e 8°C até 2100, com maior intensidade na região central. O padrão das chuvas deverá ser alterado, especialmente no verão e no Centro-Oeste e Sudeste do país. Episódios de precipitação com alta intensidade tendem a acontecer concentrados em um curto espaço de tempo, substituindo o padrão atual, de dispersa distribuição de chuva ao longo do período produtivo.

O aumento da freqüência de dias com temperaturas extremas e a diminuição do gradiente de temperatura entre o dia e a noite poderão interferir no metabolismo e o bem-estar dos animais. O aquecimento também terá consequências sobre a disponibilidade hídrica. Essas mudanças na temperatura e precipitação podem alterar a sazonalidade das pastagens e sua qualidade nutricional nas diferentes estações do ano.

Os impactos devem variar considerando a localização geográfica e o perfil do produtor rural, ressalta o estudo. Eles tendem a ser mais significativos em áreas onde atualmente ocorre baixa precipitação. Medidas de manejo das pastagens e de melhoria genética dos animais podem compensar ou minimizar os impactos negativos.

Mas em zonas mais secas ou mais afetadas pelas mudanças climáticas, a adaptação implicará em transformações significativas na composição dos sistemas produtivos. Mais pesquisa sobre a influência das mudanças climáticas sobre os sistemas de pastoreio é necessários, dizem os pesquisadores. Assim como a formulação de políticas de adaptação aos impactos pelo setor.

Mais informações: Climate change impact and adaptation of grazing systems in Australia and Brazil
Imagem: Pixabay