Efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura

A agricultura está ligada às condições climáticas, e tem passado por adaptações ao longo dos séculos. Mas esse processo de adaptação está entrando em uma nova era, afirma estudo de pesquisadores dos Estados Unidos. As mudanças climáticas tem afetado as atividades humanas, o que tende a se acelerar no futuro próximo.

De acordo com o estudo, as alterações no sistema climático causadas pelo aquecimento irão demandar medidas de adaptação do setor agrícola pelo menos nos próximos 25 anos. A adaptação agrícola deverá ser contínua, à medida que as mudanças climáticas prosseguem.

A partir de uma revisão da literatura científica, os pesquisadores avaliaram quais efeitos irão exigir esforços de adaptação do setor agrícola, as principais medidas elaboradas até o momento, os atores responsáveis pela implantação dessas medidas, e os fatores limitantes. Começando com o primeiro ponto, o estudo aponta que as mudanças climáticas alteram as temperaturas, os padrões de precipitação, a variabilidade climática regional e a incidência de incidência de eventos extremos.

Com isso, impacta-se a disponibilidade de água para a produção agrícola, os custos de produção e a incidência de pragas e patógenos. Além disso, processos relacionados à pós-produção, como armazenamento, embalagem, transporte, refrigeração e varejo também são afetados. Os impactos não se distribuem de modo geograficamente uniforme, mas variáveis e complexos. Por exemplo, enquanto a agricultura em regiões mais quentes pode ser prejudicada, ela ao mesmo se beneficiaria em regiões mais frias.

Alterações na temperatura, nas chuvas, na concentração atmosférica de dióxido de carbono – CO2 -, e na frequência de eventos extremos gera efeitos sobre a produtividade, variando de acordo com a posição geográfica e o tipo de cultura. As práticas de irrigação também sofrerão os efeitos do aquecimento, uma vez que a umidade do solo e as taxas de respiração e evotranspiração das plantas é modificada. O fluxo de cursos d’água e a recarga de aquíferos pode ser afetada, bem como a sazonalidade das chuvas, trazendo implicações quanto ao uso da água pela agricultura.

A incidência de pragas e patógenos está se tornando mais comum, interferindo na produtividade das culturas e da pecuária e nos custos de tratamento de pragas. Segundo os pesquisadores, na literatura se registram os efeitos das mudanças climáticas sobre o crescimento e a distribuição de algumas ervas daninhas, e também sobre espécies invasivas que, com o aquecimento, migraram para latitudes mais altas, causando maiores perdas de colheita. As pestes tem experimentado maior taxa de sobrevivência em áreas com invernos mais amenos, e insetos migratórios chegam mais cedo.

Na pecuária, casos de maior incidência de patógenos e doenças foram observados. O aumento da temperatura pode interferir nas taxas de mortalidade, no rendimento, na eficiência reprodutiva e outros fatores. A alimentação dos rebanhos também pode enfrentar os efeitos das mudanças climáticas através de impactos em forragens e culturas. Não apenas o crescimento do pasto, mas também a produção de grãos e oleaginosas, que são usados na alimentação dos animais, podem ser afetados.

As medidas de adaptação às mudanças climáticas atuais serão peculiares, dizem os pesquisadores. A razão é que o ritmo presente das mudanças é muito mais rápido que o observado na história recente. Como exemplo dessa velocidade, os pesquisadores lembram que, somente desde a década de 1970, a temperatura média global subiu quase 1oC.

Uma das medidas de adaptação mais discutidas na literatura é o manejo das culturas. Envolve a alteração do tempo de colheita, do tipo de cultivo e das áreas de plantio, e a aplicação de insumos. Outra adaptação importante está relacionada à gestão da água. Passa pela modificação da quantidade e tempo de irrigação, por tecnologias de captação de água, e pela construção de infra-estrutura. As mudanças climáticas está cada vez mais sendo incorporada no planejamento e controle dos usos da água.

Para lidar com os danos causados ​​pelas ervas e pragas na agricultura, aumentam-se os custos de de fungicidas, inseticidas e herbicidas. Outra alternativa é a diversificação de culturas, adotando-se espécies resistentes a pragas e doenças ou sistemas integrados de manejo de pragas e patógenos. O uso de organismos geneticamente modificados – OGM – resistentes a pragas também constitui uma possível adaptação.

A adaptação da pecuária abrange a mudança das espécies criadas, ou da raça de uma determinada espécie, além de atividades de manejo dos animais. Exemplo do primeiro caso é a substituição de bovinos de corte por cabras e ovelhas em algumas áreas da África. Passar para um sistema de produção mais diversificado foi outra prática de adaptação identificada. Quanto à gestão dos animais, foram mencionadas ações como o ajuste da taxa de estocagem, variação da estação de pastoreio e do manejo de pragas.

Uma área sensível aos efeitos das mudanças climáticas é a de seguros. O estudo nota que, em geral, os provedores de seguros enfrentam novos problemas, uma vez que as distribuições dos rendimentos das culturas e a disponibilidade de água estão mudando. As seguradoras terão dificuldade em estabelecer taxas e podem se retirar de mercados de alto risco.

O estudo ressalta que as medidas de adaptação da agricultura podem ser de caráter privado ou público. No primeiro caso, a implementação das ações é particular e autônoma, sem intervenção direta de agente público, e com vistas a beneficios próprios. As adaptações planejadas ou públicas são fruto de esforços públicos, lidando com questões públicas ou com falhas de mercado, de informações ou limites de recursos. Dessa forma, elas são imprescindíveis para complementar o nível insuficiente de investimentos da adaptação privada.

Apesar de vários fundos econômicos voltados para a implementação de medidas adaptativas às mudanças climáticas, existe uma grande diferença entre o nível atual de finanças e a necessidade total. Estima-se que, por ano, as despesas relacionadas à adaptação do setor agrícola somam aproximadamente US$ 8 bilhões. Os pesquisadores alertam que a distância entre o realizado e o que ainda precisa ser feito só aumenta. Finalmente, mesmo implantando ações de adaptação, importante reconhecer que não se evitar todos os efeitos da mudança climática.

Mais informações: Adaptation: An Agricultural Challenge
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