Adaptando a gestão de reservatórios às mudanças climáticas

A influência das mudanças climáticas sobre os regimes hidrológicos de rios e corpos d’água irá afetar a forma de projetar e de operar barragens, diz estudo de um grupo de cientistas dos Estados Unidos. Será preciso reconsiderar a gestão dos reservatórios de água frente às novas condições de chuvas, ou de extremos climáticos como inundações e secas.

Inúmeras alterações hidrológicas estão em curso, lembra o estudo. Como, por exemplo, a mudança na umidade e escoamento dos solos, na frequência e intensidade das ondas de calor, de secas e da precipitação, ou a redução da cobertura de neve. As alterações tem o potencial de interferir no fluxo e vazão dos cursos d’água, com impactos sobre as barragens.

De acordo com os cientistas, o planejamento e a operação de infraestrutura ligada à água se baseia na premissa da estacionaridade. Esta considera que o comportamento futuro de um curso d’água seguirá os padrões registrados no passado. Além disso, a construção de barragens muitas vezes atendia ao objetivo de diminuir a variabilidade no espaço e no tempo do fluxo de água, a fim de atender a diversos usos humanos.

As mudanças climáticas implicam na suspensão da premissa da estacionaridade. Assim, com a transição para um regime hidrológico diferente, as práticas de gestão da água e operação de barragens deverão ser revistas, de modo a cumprir com seus objetivos.

O estudo investigou o impacto dessas mudanças no conjunto de reservatórios localizados em uma mesma região no nordeste dos Estados Unidos. A partir das projeções de um modelo climático, e considerando quatro cenários de emissões de gases de efeito estufa, os cientistas simularam os fluxos de água a montante e a jusante das barragens distribuídas nos rios da região.

Os resultados sugerem que, apesar do aumento da precipitação, a região de estudo enfrentará uma diminuição da disponibilidade de água devido ao aumento da evaporação. Os efeitos da sazonalidade se tornam mais acentuados e contrastantes, com maior disponibilidade de água nos meses úmidos e menor nos meses secos.

Os impactos das mudanças hidrológicas na operação dos reservatórios foi significativa, variando em função da alteração no regime hidrológico de cada área geográfica. A capacidade dos reservatórios de atender às diversas demandas por água – ecológicas, de abastecimento e geração de energia hidro e termelétrica – foi afetada. Regionalmente, o estudo também registrou aumento da vulnerabilidade do sistema às secas.

O maior desequilíbrio entre os fluxos de água dos períodos seco e chuvoso constituiu um dos principais impactos sobre a gestão dos reservatórios. A mudança na freqüência e intensidade de cheias e de secas comprometeu a capacidade dos reservatório de regularizar a vazão dos cursos d’água. Na região avaliada pelo estudo, cerca de 77% das barragens possuíam reservatórios de pequenas proporções. Muitas era antigas e classificadas como de alto risco.

Nesse sentido, haveria a necessidade de adaptar o sistema, expandindo a capacidade de armazenamento da água das chuvas. O estudo mostrou que, com as mudanças climáticas, substituir as barragens antigas por um número menor de barragens novas e maiores consistiria em uma estratégia de minimização de impactos negativos. Traria também o benefício de reduzir o nível de fragmentação dos rios.

Adequações da infraestrutura, no entanto, poderiam não ser suficientes. A forma de operar os reservatórios precisaria também se adaptar às novas condições. Com a evolução das mudanças climáticas, os cientistas ressaltam que o planejamento e a operação de barragens ganhará cada vez mais projeção no contexto da bacia hidrográfica.  O atendimento aos usos múltiplos se tornará um ponto cada vez mais central.

Mais informações: Reservoir operations under climate change: Storage capacity options to mitigate risk
Imagem: Pixabay