Uma explicação para a retração do gelo marinho na Antártica

Após uma tendência de décadas de aumento, o gelo marinho da antártico diminuiu ano passado para a menor extensão observada desde que o monitoramento teve início, há 40 anos. Estudo publicado por pesquisadores dos Estados Unidos sugere que a súbita retração foi causada por condições atmosféricas únicas registradas no oceano Pacífico e em torno do pólo sul.

A abrupta redução foi também imprevista. No final de 2016, a área ocupada pelo gelo marinho havia caído para 2 milhões de quilômetros quadrados, bem inferior à media registrada. Estatísticamente, tamanha redução teria probabilidade de acontecer uma vez a cada 300 anos. Para explicá-la, os pesquisadores investigaram os padrões circulatórios da atmosfera de maior escala.

 

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A animação ilustra a redução mensal no gelo marinho antártico. Fonte: Nature

 

Um dos fatores foi o El Nino de 2015-16. Longe dos trópicos, o El Nino produz um conjunto de zonas de altas e baixas pressões atmosféricas, cujas consequências se fazem notar no aumento da temperatura das águas superficiais nos mares ao redor da Antártica. Como o ano seguinte ao El Nino foi praticamente neutro, não sendo contrabalançado pelo fenômeno oposto, El Nina, a influência sobre a temperatura da água superficial dessas regiões se estendeu por mais tempo.

Simultaneamente, em 2016 os ventos que circundam a Antártica foram inusitadamente mais fracos do que a média. Os ventos possuem um papel relevante na formação do gelo marinho, ao empurrar o gelo formado para longe da costa antártica, abrindo espaço para a formação de mais gelo. Com os ventos mais fracos, a formação de novo gelo ficou prejudicada.

A partir dos dados climatológicos, os cientistas avaliaram simulações de modelos climáticos para avaliar o impacto do El Nino e do enfraquecimento dos ventos na redução do gelo marinho antártico. Os resultados mostraram que esses fatores responderia por cerca de dois terços do declínio registrado em 2016. O último elemento envolvido pode ter sido a ocorrência de tempestades, o que contribuiria na fragmentação das placas de gelo marinho.

Prevê-se que a Antártica será o último lugar no planeta a experimentar os impactos do aquecimento global. Eventualmente, o aumento das temperaturas chegará às águas do oceano antártico, o que levará a uma tendência de longo prazo de declínio na extensão do gelo marinho.

Mais informações: Record-low 2016 Antarctic sea ice due to ‘perfect storm’ of tropical, polar conditions
Gráfico: extensão do gelo marinho antartico durante a primavera (novembro-dezembro)