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Mudança do clima levou a migração de floresta tropical

A distribuição geográfica de florestas tropicais de montanha no Brasil apresenta um padrão intrigante. Esse tipo de vegetação pode ser encontrada no sudeste e centro do país. Mas fragmentos isolados e distantes também ocorrem na Amazônia e norte da América do Sul.

A origem dos diferentes fragmentos de vegetação do sudeste e centro do Brasil constituía um mistério. Mas estudo de um time de cientistas de universidades brasileiras e estrangeiras apontou uma possível origem: a migração de espécies, durante um período de clima favorável, entre 18,1 e 14,7 mil anos atrás.

Hipóteses anteriores sugeriam que as espécies de flora teria migrado há milhões de anos atrás, durante épocas geológicas bem mais antigas. O estudo avaliou uma outra hipótese, pela qual a migração da floresta tropical montanhosa em direção ao norte do país teria ocorrido no fim da última glaciação.

Em especial, entre 18,1 e 14,7 mil anos atrás, quando se verificou o evento conhecido como Heinrich Stadial 1 – HS1. A retração das geleiras levou a eventos em que a descarga de gelo e icebergs no Atlântico Norte alterou as correntes oceânicas.

As modificações no oceano se refletiram no comportamento da Zona de Convergência do Atlântico Sul – ZCAS – e na Zona de Convergência Intertropical – ZCIT, dois grandes sistemas meteorológicos que controlam as condições climáticas na América do Sul e no Brasil.

Registros paleoclimáticos, como fósseis, espeleotemas e sedimentos, indicam condições de umidade mais abundante ao longo do Brasil, da Bahia até a região sul. Nesse contexto, mais frio e úmido, a hipótese dos cientistas era que se formou de um corredor sul-norte, pelo qual a floresta tropical de montanha poderia migrar.

Mapa da migração de floresta tropical de montanha
Mapa de corredores de migração da floresta tropical de montanha das regiões central e sudeste para o norte do Brasil. Mudanças climáticas durante o fim da última glaciação teriam favorecido a expansão da floresta. Fonte: Figura 2 do estudo.

A intensificação das chuvas teria favorecido a expansão da floresta de montanha. Dcentro sul do país, em função das condições climáticas favoráveis, a vegetação teria se movido em direção a pontos elevados de onde hoje se encontra o Cerrado e a Caatinga, até o norte e nordeste.

Para avaliar a hipótese, o estudo levantou os registros paleoclimáticos de pólen, indicativos da presença de espécies de árvores de floresta tropical montanhosa, mapeando sua distribuição ao longo do país.

Combinando essas informações com um modelo computacional de distribuição de espécies, foi possível estipular os locais mais favoráveis para a ocorrência da vegetação durante o HS1.

Segundo os cientistas, as evidência indicam que no período as monções da América do Sul ficaram mais úmidas e com temperaturas mais baixas. As incursões de massa de ar polar teriam se tornado mais regulares, formando frequentes frentes frias que alcançava o norte, o nordeste e a Amazônia.

As alterações climáticas do período favoreceram o estabelecimento de corredores migratórios de espécies de flora tropical de montanha, conectando o centro-sul do país a pontos mais próximos do equador. Apesar de não descartar a formação de corredores no passado, o estudo concluiu que o período teve um papel fundamental na distribuição atual das florestas tropicais montanhosas do brasileiras.

Mais informações: Pinaya, J.L.D., Cruz, F.W., Ceccantini, G.C.T. et al. Brazilian montane rainforest expansion induced by Heinrich Stadial 1 eventSci Rep 9, 17912 (2019).
Imagem: Flickr/Chantal Wagner Kornin

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