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Mitigação só da boca para fora

Os investimentos dos bancos no setor de combustíveis fósseis voltou a subir. Relatório da organização não governamental Rainforest Action Network mostrou que, em 2017, os bancos aumentaram a quantidade de dinheiro investido em projetos ligados ao petróleo, ao gás natural ou ao carvão, em comparação com 2016.

A ONG publica o relatório anualmente desde 2009. Nele são identificadas as práticas bancárias de financiamento de alguns dos setores de combustíveis fósseis mais intensivos em carbono ou de exploração mais extrema. E também os impactos negativos desses setores sobre direitos humanos e indígenas, saúde e bem-estar da comunidade.

Um conjunto de cinco tipos de combustíveis fósseis foram considerados como mais intensivos ou extremos pela ONG. Eles são as areias betuminosas, a exploração de petróleo no Ártico, a exploração de petróleo em águas ultraprofundas, a mineração de carvão e a geração de energia a carvão, e o gás natural liquefeito da América do Norte.

Segundo o relatório, a assinatura do acordo climático de Paris, em 2015, levou a uma diminuição acentuada no financiamento bancário no ano seguinte, 2016. Mas a retração não durou muito.

Levantando dados dos 36 maiores bancos do mundo, foi registrado em 2017 um aumento de 11% no total de investimentos em combustíveis fósseis em comparação com o ano anterior. A soma dos investimentos no setor totalizou US$ 115 bilhões.

Gráfico mostra o total de investimentos dos 36 maiores bancos mundiais em combustíveis fósseis. A cor vermelha indica areais betuminosas. As cores preta e marrom mostram mineração e geração de eletricidade do carvão. Fonte: relatório ‘Banking on Climate Change 2018’.

Em grande medida, o aumento se deu pelo maior financiamento da produção e de oleodutos de areias betuminosas, particularmente no Canadá. De 2016 para 2017, o total de investimentos em projetos de areias betuminosas cresceu 111%, alcançando US$ 47 bilhões.

Com isso, as areias betuminosas ultrapassaram o carvão e se tornaram o tipo de combustível fóssil com o maior volume de investimentos de bancos. Vale notar que os investimentos em carvão se mantiveram no mesmo alto patamar.

Os investimentos de bancos chineses combustíveis fósseis mais intensivos em carbono diminuíram significativamente nos três últimos anos. Bancos japoneses, australianos e europeus também apresentaram uma pequena tendência de queda entre 2015 e 2017.

Gráfico apresenta o total de investimentos dos 36 maiores bancos mundiais, separados por países. A cor marrom corresponde a bancos canadenses, e a azul clara, a bandos dos EUA. Fonte: relatório ‘Banking on Climate Change 2018’.

O oposto se verificou com bancos do Canadá e dos Estados Unidos. Forte aporte de capital levou o Royal Bank do Canadá, o Toronto Dominion Bank e o JPMorgan Chase a ultrapassarem os bancos chineses, passando a líderes em investimento em combustíveis fósseis.

Somente o JPMorgan Chase, dos Estados Unidos, incrementou o financiamento para a mineração de carvão em 21 vezes entre 2016 e 2017. O banco também quadruplicou a quantidade de dinheiro investido em petróleo de areias betuminosas.

Entre os dez bancos que mais investem, quatro são do Canadá, três da China, dois dos Estados Unidos e um da Europa. Todavia, ao avaliar os dez bancos que mais aumentaram os financiamentos de combustíveis fósseis em 2017, todos eles são canadenses, dos Estados Unidos ou da Europa.

Gráfico traz os dez bancos com mais investimentos em combustíveis fósseis. A maior parte é do Canadá e da China. Fonte: relatório ‘Banking on Climate Change 2018’.

O relatório apresenta três estudos de caso de projetos nos Estados Unidos e no Sudeste Asiático. Todos exemplificam a falta de políticas efetivas dos bancos para evitar o financiamento de combustíveis fósseis intensivos ou extremos e de empresas altamente poluentes.

Boa parte dos grandes bancos tem feito pouco para alinhar suas atividades com as metas do acordo climático de Paris.

Estimativas anteriores sugerem que as potenciais emissões das reservas e minas de petróleo, gás e carvão atualmente em operação no mundo elevariam a temperatura média global além de 2oC acima dos níveis pré-industriais.

Somente as reservas existentes nos campos de petróleo e gás atualmente em operação, sem considerar o carvão, fariam a temperatura subir além de 1,5oC. Os novos investimentos significam que novos projetos irão entrar em operação.

Ao que tudo indica, o acordo climático de Paris foi apenas da boca para fora. Estamos investindo em um aquecimento global superior às metas.

Para o que der e vier. 

Fonte: Rainforeste Action Network
Mais informações: Banking on Climate Change
Imagem: Flickr/ Dru Oja Jay

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