Press "Enter" to skip to content

A máquina militar e o aquecimento global

Há um assunto que não aparece nos acordos internacionais relacionados ao aquecimento global. Quase um segredo, guardado a sete chaves por políticos, pela comunidade científica internacional e pela mídia. Um tema que é ao mesmo tempo crucial para a efetiva implantação de medidas mitigadoras do aquecimento, e que exerce influencia na adaptação às mudanças climáticas.

Trata-se da relação entre o complexo industrial-militar e o aquecimento global, especialmente no caso dos Estados Unidos. A máquina de guerra do país é também uma máquina de queimar combustíveis fósseis. O Departamento de Defesa é o maior consumidor de petróleo nos EUA e o maior consumidor industrial de petróleo no mundo.

Em 2012, estimou-se que o departamento consumia anualmente cerca de 117 milhões de barris de petróleo, emitindo aproximadamente 49 milhões de toneladas métricas de CO2 para a atmosfera. Outros cálculos sugerem que o complexo militar dos EUA utiliza cerca de 1 milhão de barris de petróleo por dia, gerando 5% das emissões globais de gases de efeito estufa por ano.

Os valores seriam maiores caso se incluísse o consumo de petróleo e a produção de cimento dos empreiteiros contratados pelo Departamento de Defesa dos EUA no exterior. Durante conflitos em que o país se envolve diretamente, o consumo sobe. Em 2003, no início da Guerra do Iraque, calculou-se que três semanas de combate demandariam mais de 150 milhões de litros de gasolina. Em 2006, a força aérea do país utilizou 11 bilhões de litros de combustíveis, aproximadamente um quarto do que é consumido por todos os jatos do mundo.

O militarismo é a atividade humana mais intensiva em consumo de petróleo, tendência que aumenta à medida que o setor implementa tecnologias cada vez mais sofisticadas, desenvolvendo aviões, tanques e navios de guerra maiores e mais rápidos. 

Interação entre o militarismo e a indústria do petróleo

O petróleo é indispensável para a atividade militar. Desde a década de 1970, os EUA gastou aproximadamente US$ 8 trilhões com patrulhas navais na região do Golfo Pérsico, uma das principais vias marítimas de transporte de petróleo. E manter o controle sobre as vias marítimas na região do mar do sul da China é um dos motivos da expansão militar dos EUA em direção à Ásia.

Há estudos apontando o petróleo como fator por trás de movimentos internacionais de exercício de poder e de conflitos. Assegurar o acesso ao petróleo é uma das prioridades dos Estados Unidos e de outros grandes centros consumidores, como a União Européia e mais recentemente a China. Para tanto, tais centros se utilizam de diplomacia, estimulam a subversão, ou apelam para a intervenção militar – um dos maiores exemplos foi a última Guerra do Iraque.

Uma estimativa para o ano de 2009 indicava que cerca de US$ 100 bilhões do orçamento militar dos Estados Unidos foram gastos na missão de garantir o acesso à energia. Isso corresponderia a aproximadamente 20% do orçamento do Departamento de Defesa. Ao longo do século XX, o Golfo Pérsico consistiu em uma das principais áreas de interesse militar. As disputas pelos recursos da região se iniciaram nas intervenções coloniais e neocoloniais da Grã-Bretanha, Rússia, França e Alemanha, até que os Estados Unidos se estabeleceram como a principal potência mundial na região.

Outro local de disputa é o Sudão e outras partes da África subsariana, onde as potências ocidentais concorrem com a China pelo acesso ao petróleo. Cerca de 30% do petróleo que abastece os chineses é extraído da África, sendo quase 8% apenas do sul do Sudão. Em outros países da África Ocidental, os Estados Unidos obtêm mais de 15% do petróleo que consome, valor equivalente ao importado da Arábia Saudita.

Na América do Sul, o maior exemplo do conflito de interesses é a Venezuela, onde ficam as maiores reservas mundiais de petróleo. O governo populista de Hugo Chávez nacionalizou o setor de óleo e gás do país. A partir daí, ganhou autonomia para tratar com outros atores internacionais. O governo venezuelano organizou o fornecimento de petróleo para Cuba em troca de dinheiro, bens e serviços. E permitiu aos chineses ter acesso ao petróleo do país.

Chávez ajudou a Argentina a pagar a dívida junto ao Fundo Monetário Internacional – FMI, ajudou a Bolívia a pagar algumas de suas dívidas, e ofereceu ajuda financeira ao Equador. Estimulou a formação de consórcios regionais de petróleo para o Caribe, a região andina, a América do Sul e a América Latina. Desenvolveu ativamente a diplomacia venezuelana junto a outros grandes produtores de óleo e gás, como a Rússia, o Irã, a Indonésia e Angola, além da China.

O interesse dos Estados pelos recursos energéticos se mistura ao interesse das empresas do setor de óleo e gás, o que é mais fácil de perceber no caso dos chineses, cujas companhias petrolíferas são todas estatais. No caso das potências do ocidente, as companhias privadas se beneficiam duplamente. De um lado, cria-se um enorme mercado consumidor através do complexo industrial-militar. De outro lado, ganha-se acesso à reservas ou influência sobre os produtores de petróleo.

Indústria de defesa e militarismo

O militarismo é o ganha-pão da indústria de defesa. O lucro das empresas está diretamente vinculado aos orçamentos militares nacionais, uma vez que estes irão se traduzir em mais uniformes, armas, equipamentos, e investimento em novas tecnologias. Quanto maior o gasto dos Estados em defesa, maior o lucro das empresas.

Nesse sentido, as disputas pelos recursos energéticos é central para a indústria de defesa, porque consiste em um dos principais focos do militarismo. A disputa estimula os Estados a destinarem largas fatias do orçamento à defesa. E as indústrias localizados em um determinado país podem lucrar não apenas através dos orçamentos nacionais, mas também por meio de gastos de países estrangeiros.

É o caso do Oriente Médio. Países como a Arábia Saudita, o Irã e o Iraque usaram e ainda usam as rendas do petróleo para comprar armas de fabricantes estrangeiros. A disputa armamentista local é em boa medida fomentada por outros países, como as potências ocidentais, de forma a manter regionalmente uma constante atmosfera de ameaça.

Com isso, forma-se um circuito entre a produção de petróleo e a produção de armas. Parte do dinheiro despendido pelas potências consumidoras de energia na compra de petróleo retorna às mesmas por meio da venda de armamentos aos países exportadores. Troca-se petróleo por armas. E quanto maior a tensão regional, maiores as vendas da indústria de defesa.

Na África, empresas petrolíferas dos EUA exploravam reservas em Angola, Argélia, Gabão, Guiné Equatorial e Nigéria. Simultaneamente, o governo fornecia ajuda e assessoria militar a diversos países. Em troca do acesso aos recursos energéticos e minerais africanos, os principais países consumidores fornecem armas e treinamento militar às forças armadas locais. Desse modo, estimulam o exercício do poder pela força bruta, consequentemente os gastos com o militarismo.

Invisibilidade e influência na comunidade internacional

Apesar da relevância do complexo industrial-militar, as emissões do setor são invisíveis para os negociadores dos acordos climáticos internacionais. Durante as negociações do Protocolo de Quioto, em 1997, a delegação dos EUA (integrada pelo vice-presidente Al Gore) garantiu a isenção do setor militar das metas de corte das emissões.

Após alcançar a isenção do complexo industrial-militar, o lobby do setor evitou que o país ratificasse o protocolo. Logrou também, em 1998, fazer com que o congresso dos EUA publicasse a lei de Autorização da Defesa Nacional – National Defense Authorization Act, em inglês -, na qual é expressa que o Protocolo de Quioto ou qualquer acordo semelhante não pode interferir nas atividades das forças armadas do país.

Mesmo em reuniões mais recentes da comunidade internacional, o tema vem sendo evitado. Além disso, devido à isenções e confidencialidade, as metodologias de inventariamento de gases de efeito estufa geram falta de transparência quanto as emissões do complexo industrial-militar. Não há dados abrangentes e detalhados do setor. Essa incerteza representa uma das maiores lacunas dos inventários nacionais de emissões.

Aproveitando-se da invisibilidade, o setor exerce influência sobre a comunidade científica e política internacional. O argumento é que o aquecimento global representa uma ameaça à segurança, uma vez que o aumento do nível do mar, da frequência e intensidade das secas ou de eventos extremos podem levar à instabilidade social e política. Promove-se a continuidade do militarismo, uma das principais atividades emissoras de gases de efeito estufa e intimamente relacionada com a extração de combustíveis fósseis.

Mais informações:
Demilitarization for Deep Decarbonization: Reducing Militarism and Military Expenditures to Invest in the UN Green Climate Fund and to Create Low-Carbon Economies and Resilient Communities
The impact of the war machine on global warming and the health: a political ecological perspective
The “Invisible Casualty of War”: The Environmental Destruction of U.S. Militarism 
Tom Mayer: Militarism versus the environment
War and Warming: Can We Save the Planet Without Taking on the Pentagon?
Imagem: Freeimages

Comments are closed.

%d blogueiros gostam disto: