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Migração no nordeste com mudanças climáticas

As mudanças climáticas podem desencadear a migração no nordeste, em particular no semiárido brasileiro, intensificando o processo de urbanização regional, indicou estudo de pesquisadores brasileiros.

Umas das possíveis impactos do aquecimento global e das mudanças climáticas é o agravamento do deslocamento de pessoas. Particularmente daquelas com menor renda e socialmente mais vulneráveis.

Os fluxos migratórios tem origem em um conjunto de fatores. As mudanças climáticas constitui um deles, e pode afetar a atividade econômica e a subsistência das pessoas. Segundo o estudo, essa influência seria ainda maior em áreas rurais em que a agricultura constitui uma importante fonte de renda.

Mapa do Brasil, da região Nordeste e dos municípios do semiárido
Mapas do Brasil, da região Nordeste e – dentro dela – dos municípios do semiárido. Fonte: figura 1 do estudo.

A modificação do regime das chuvas e maiores temperaturas elevam o risco de queda do rendimento das safras. Com isso, a renda e os empregos no setor agrícola, ou, por exemplo, na indústria de alimentos, também são prejudicados.

No caso da agricultura de subsistência, as perdas na produção podem levar à migração das pessoas da área rural para as cidades. O estudo ressaltou que, para as pessoas mais pobres, a mobilidade de um local para outro pode constituir uma alternativa de adaptação a choques climáticos.

Contudo, ainda prevalecia muita divergência a respeito da influência do clima sobre os fluxos migratórios das áreas rurais para as cidades. No caso do Brasil, e particularmente do nordeste, havia muito pouca pesquisa sobre o tema.

A região do semiárido apresenta altas taxas de migração interna, da área rural para a área urbana de um mesmo município, em função das secas. Ele respondeu por quase 40% desse tipo de fluxo migratório no país entre 1995 e 2000.

Gráfico evolução da chuva e temperatura no Brasil e regiõesO gráfico à esquerda mostra a precipitação média anual do período entre 1981 e 2010 para Brasil (cor verde), o nordeste (vermelho) e o semiárido (azul). O gráfico da direita traz os dados da temperatura média anual. Fonte: figura 2 do estudo.

A temperatura média anual da região subiu 1,4°C durante o período entre 1980 e 2010. As projeções de modelos climáticos apontam para a continuidade desse tendência, à medida que avança o aquecimento global, e para uma restrição na quantidade de chuvas.

No semiárido se reproduzem condições de pobreza e de grande desigualdade social. Apesar da economia estar concentrada no setor terciário, a agricultura de pequena escala, e dependente das chuvas, possui grande relevância para a atividade de subsistência da área rural.

Para compreender melhor o processo migratório intra-municipal do semiárido brasileiro, os pesquisadores investigaram se, no período entre 1991 e 2010, as variáveis climáticas influenciaram os níveis de urbanização.

Foi elaborado um modelo econômico espacial, de modo a explorar a relação entre os fatores climáticos e a urbanização. O estudo também explorou dois cenários futuros de mudanças climáticas, um de altas e outro de médias emissões de gases de efeito estufa.

Dados sociais, econômicos e demográficos dos municípios do semiárido, abrangendo o período entre 1991 e 2010, foram obtidos junto a órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – e o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA.

Com base nos resultados, os pesquisadores concluíram que os fatores climáticas, em especial a temperatura, exerceram influência nos fluxos migratórios regionais e nos níveis de urbanização. Os municípios mais afetados foram aqueles mais dependentes do setor agrícola.

Os cenários futuros sugerem que as mudanças climáticas irão intensificar os fluxos migratórios no semiárido do Brasil. Em relação aos demais fatores por trás da migração, a influência do clima deverá se tornar, com o tempo e à medida que continuem as emissões de gases de efeito estufa, cada vez mais significativa.

O estudo alertou para a necessidade de implementar políticas públicas direcionadas à resiliência da população rural às mudanças climáticas. Uma possibilidade seria fazer a prática agrícola menos sensível ao clima.

Mas o planejamento urbano no semiárido precisa também incluir estratégias para lidar com o fluxo migratório. Incluindo a absorção dos novos habitantes e a garantia de acesso a serviços públicos básicos.

Mais informações: Delazeri, L.M.M., da Cunha, D.A. and Couto-Santos, F.R., 2018. CLIMATE CHANGE AND URBANIZATION: EVIDENCE FROM THE SEMI-ARID REGION OF BRAZILRevista Brasileira de Estudos Regionais e Urbanos12(2), pp.129-154.
Imagem: Flickr/ PNUD Brasil

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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