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O mercado é um obstáculo à implantação de fontes renováveis

Sob o modelo atual liberalizado do mercado de energia, a transição para um setor de energia elétrica 100% renovável é inatingível, afirma estudo de pesquisadores da Arábia Saudita. As condições atuais do mercado tornam a implantação futura de energia renovável necessariamente mais dispendiosa.

Segundo o estudo, energias renováveis possuem custos marginais insignificantes de despacho. É o caso, por exemplo, de uma usina eólica: quando a quantidade de vento é maior, ela gera mais energia sem praticamente incorrer em custos adicionais.

Em uma estrutura de mercado de energia liberalizado, existente na maioria das economias desenvolvidas, tal característica traz impactos nos preços da eletricidade à medida que sobe a participação das fontes renováveis. Por sua vez, os impactos no preço comprometem o desenvolvimento de novos projetos renováveis, pois eles ficam mais dispendiosos, e seu aumento de escala, mais desafiador.

Dessa forma, em mercados liberalizados, políticas de estímulo à participação de renováveis podem levar ao efeito contrário. O estudo denomina esse efeito de paradoxo de políticas de energia renovável, pelo qual o sucesso em curto e médio prazo, expandindo a participação de fontes renováveis, leva a uma perda de eficiência e eficácia, comprometendo a política no futuro.

Tendo em vista o paradoxo, os pesquisadores investigaram se mercados liberalizados de energia seriam compatíveis com políticas de energia renovável. Para tanto, identificaram as premissas sobre as quais se estrutura a liberação da produção e comercialização de energia, e como se dá a integração das fontes renováveis, particularmente na Europa.

Antes organizado como monopólio natural, constituído por empresas públicas verticalmente integradas, o sistema de eletricidade europeu sofreu profunda reforma nas décadas de 1980 e 1990. Eliminou-se a verticalização, e os produtores passaram a vender energia no mercado. O processo de liberalização e privatização do sistema, ressalta o estudo, adotou uma abordagem marginalista. 

A contratação de energia passou a ocorrer a partir de um leilão. O preço considerado no leilão é fixado como sendo o custo marginal de produção da última unidade vendida, que é a mais cara. Quanto menor o custo de produção marginal da usina geradora, mais ela lucrará com o preço de compensação pago no leilão de compra de energia. A usina que vendeu a energia mais cara do leilão só conseguirá cobrir seus custos marginais de operação.

Revisando a literatura sobre o tema, o estudo identifica que o crescimento da participação de fontes renováveis na Europa trouxe impacto significativo sobre o mercado de energia. Distorções foram introduzidas, com incremento da volatilidade e da redução dos preços da eletricidade.

O motivo é que, com custos marginais muito pequenos, as fontes renováveis influenciam fortemente na curva da oferta, derrubando os preços. Todavia, elas são intermitentes, produzindo conforme as condições climatológicas, e não conforme a demanda. Às vezes a oferta de eletricidade é maior, às vezes menor, causando volatilidade no mercado.

Tais efeitos poderiam ser compensados, caso existisse uma tecnologia de armazenamento de eletricidade em larga escala. O armazenamento eliminaria a intermitência. Na prática, contudo, a expansão do parque gerador renovável não é capaz de substituir o parque de geração tradicional.

A queda do preço da eletricidade não reflete um verdadeiro declínio no custo total da produção de energia, alertam os pesquisadores. Em um mercado liberalizado como o europeu, a queda de preço se dá em função do custo marginal de despacho muito baixo das fontes renováveis. Com isso, a depressão e a volatilidade do preço comprometem o crescimento de longo prazo da própria tecnologia renovável.

Em situações de mercado liberalizado e grande penetração de fontes renováveis, a capacidade de incentivo ao crescimento da energia renovável por meio de política diminui significativamente, argumentam os pesquisadores. Portanto, a penetração de fontes renováveis em mercados liberalizados possui um limite.

Tecnologias em larga escala para armazenar eletricidade ainda são constitui uma possibilidade remota. Assim, o estudo aponta duas alternativas para superar o paradoxo. A primeira seria retornar ao modelo de monopólio natural. A segunda seria a criação de novos mecanismos de mercado, de modo a refletir a estrutura completa dos custos das fontes renováveis e a compensar adequadamente a produção de energia por meio de tecnologias convencionais.

Mais informações: The renewable energy policy Paradox
Imagem: Pixabay

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