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Leitos dos rios se modificam com o clima

Os leitos dos rios ajustam suas características, como geometria, transporte, forma, extensão e densidade de drenagem, em resposta às condições do clima. No entanto, rios e bacias hidrográficas são normalmente abordados como formações de capacidade fixa de transporte de descarga, apontou estudo de cientistas de universidades do Reino Unido.

Devido ao sedimento que carregam, os cursos hídricos ajustam as características morfológicas de seus leitos – como, por exemplo, a geometria – dinamicamente ao longo do tempo. O ajuste depende dos regimes de vazão e de drenagem de sedimentos a montante. As mudanças podem ser sutis e progressivas, ou então abruptas.

Segundo o estudo, as alterações nos leitos refletem as condições climáticas. Períodos de tempo mais úmidos ou mais secos do que a média irão representar uma alteração na quantidade de chuvas, no escoamento da água na bacia, as vazões e o carreamento de sedimentos.

Mudanças na morfologia do leito de um rio
As ilustrações mostram possíveis alterações na morfologia do leito de um rio em resposta às condições climáticas. Fonte: adaptado da figura 1 do estudo.

As condições do clima sofrem influência de oscilações climáticas de larga escala, com periodicidades que vão de um ano a várias décadas. É o caso da Oscilação Sul do El Niño – OSEN -, ou da Oscilação Decadal do Pacífico – ODP. Contudo, não se havia sido investigado uma possível associação entre as oscilações climáticas de larga escala e a morfologia dos leitos dos cursos hídricos.

Para investigar essa questão, os cientistas reuniram medições hidrométricas de 67 rios dos Estados Unidos, abrangendo os anos entre 1950 e 2017. Eles examinaram se modificações em características da morfologia dos canais dos rio se dava em resposta à Oscilação Sul do El Niño – OSEN -, à Oscilação Multidecadal do Atlântico – OMA – e à Oscilação do Ártico – OA.

Em dois terços dos rios avaliados, o estudo identificou que a capacidade de escoamento do canal experimentava fases de expansão e de contração, conforme as mudanças na precipitação da bacia hidrográfica e nas vazões. Estas mudanças estiveram associadas à influência das diferentes oscilações climáticas de larga escala – OSEN, OMA e OA.

O estudo forneceu evidências preliminares de que a geometria e a capacidade de transporte dos rios varia em resposta às condições climáticas. No entanto, os resultados não podem ser generalizados, uma vez que as modificações na morfologia dos rios dependem de uma conjunção de fatores específicos a cada bacia hidrográfica. Mais pesquisa é necessária.

Ao mesmo tempo, os resultados apontam que projetos de infraestrutura hídrica e cálculos de recorrência de enchentes podem conter maiores incertezas. Isso porque eles usualmente se baseiam na suposição de que a morfologia dos cursos hídricos – incluindo geometria e transporte  é fixa.

Caso se verifique uma modificação dinâmica nas características dos leitos, como aquela observada pelo estudo, então os cálculos de vazões e de probabilidade de enchentes podem estar super ou subestimados. Nesse sentido, o estudo recomendou que modelos de inundação, projetos de infraestrutura e estimativas de recorrência incorporem a variabilidade temporal em seus cálculos.

A recomendação ganha ainda mais importância em um contexto de aquecimento global. Os rios e suas características morfológicas compõem mais um elemento do sistema climático terrestre que estará sujeito à alterações.

Mais informação: Slater, L. J., Khouakhi, A., & Wilby, R. L. (2019). River channel conveyance capacity adjusts to modes of climate variabilityScientific Reports.
Imagem: Unsplash/ Anders Jildén

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