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O que é o IPCC?

Por que foi criado o IPCC e o que ele faz?

IPCC é a sigla em inglês de Intergovernamental Panel on Climate Change. Em português, ele é chamado de Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. A entidade foi criada em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Quando de sua fundação, o papel do IPCC era de revisar a produção científica a fim de fornecer uma visão clara do conhecimento da ciência sobre o aquecimento global, as mudanças climáticas e os potenciais impactos ambientais e socioeconômicos.

Hoje, o IPCC define como seu papel avaliar a informação científica, técnica e socioeconômica relevante para melhor compreender os riscos associados às mudanças climáticas, os possíveis impactos e as opções disponíveis de mitigação e adaptação.

Estrutura do IPCC

Ilustração da estrutura do IPCC. Fonte: IPCC.

O principal órgão deliberativo do IPCC é o Painel, composto por representantes governamentais de todos os 195 países membros. Aproximadamente uma vez por ano, o Painel se reúne em sessões para tomar decisões a respeito da entidade e suas atividades.

Um conjunto de mais de 30 membros é eleito pelo painel para exercer os cargos do Gabinete, incluindo, entre outros, o Presidente, Vice-Presidentes, Co-Presidentes e Vice-Presidentes da força-tarefa e dos grupos de trabalho. O trabalho é não remunerado e lida com a administração da entidade e a orientação do Painel quanto aos aspectos científico e técnico.

Um Comitê Executivo tem como responsabilidade zelar pela implementação efetiva e dentro do prazo das atividades do IPCC. Ele também coordena a integração entre os diferentes grupos de trabalho e forças-tarefa, além de tratar de questões urgentes que demandam resposta mais imediata.

A força-tarefa de gases de efeito estufa trata dos Inventários Nacionais de Gases de Efeito Estufa. Ela possui um Gabinete próprio, formado por 12 membros e 2 Co-Presidentes do Gabinete geral do IPCC. O papel da força-tarefa é desenvolver e aprimorar uma metodologia internacional de cálculo e divulgação dos inventários.

O trabalho central do IPCC é elaborar um relatório com a síntese do conhecimento científico a respeito das mudanças climáticas. O relatório é dividido em três grupos de trabalho. O grupo I avalia os aspectos físicos e científicos das mudanças climáticas. Ele apresenta, entre outros, o monitoramento das características e propriedades de cada elemento do sistema climático, estudos paleoclimáticos (do passado da Terra) e sobre processos biogeoquímicos, e a análise e projeções originadas da aplicação de modelos climáticos.

O grupo de trabalho II está direcionado à avaliação da vulnerabilidade dos sistemas socioeconômicos e naturais às mudanças climáticas. Ele relata o que a pesquisa científica tem discutido sobre as consequências das mudanças climáticas, negativas e positivas, e sobre as alternativas para adaptação.

O grupo III aborda a mitigação do aquecimento global. Em geral, indica as opções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa ou atividades e tecnologias que sequestram o carbono da atmosfera. Inclui uma avaliação dos custos e benefícios das opções consideradas, os instrumentos, as medidas e políticas disponíveis, abrangendo diversos setores da economia, como energia, transporte ou agricultura.

A elaboração dos relatórios de análise do IPCC

Embora baseado em Genebra, na Suíça, o trabalho mais importante do IPCC é fruto de uma rede descentralizada e em constante evolução de cientistas voluntários que realizam a maior parte de seus trabalhos de forma remota tanto do centro da organização quanto entre eles. Por meio de sua estrutura e hierarquia, o IPCC coordenada o trabalho conjunto da rede de voluntários. A cada seis anos aproximadamente, a rede de cientistas é organizada em torno de cada grupo de trabalho, levando à publicação de três relatórios – uma para cada grupo (Mahony, 2014).

Centenas de autores participam da elaboração dos capítulos e dos resumos dos relatórios. O texto preliminar passa então por um processo de revisão em várias etapas, primeiro por milhares de especialistas em áreas específicas de conhecimento, e depois por especialistas e por representantes governamentais. Organizações observadoras, tais como agências estatais, agências ligadas às Nações Unidas, ou organizações não governamentais, também participam do processo de revisão.

O quinto e último relatório do IPCC, publicado entre 2013 e 2014, contou, segundo informações da própria instituição, com a participação de 830 autores e aproximadamente 2.000 revisores de mais de 80 países. Os relatórios avaliaram a pesquisa científica publicada, produzindo uma síntese do conhecimento atual.

O gráfico traz a quantidade aproximada de artigos científicos citados em cada um dos relatórios de avaliação do IPCC. Crédito: Ciência e Clima.

História do IPCC

A criação do IPCC se deu em função principalmente de quatro atores: a Organização Meteorológica Mundial – OMM -, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA -, o Conselho Internacional de Uniões Científicas – CIUC – e o Governo dos Estados Unidos (Mahony, 2014).

Em meados da década de 1980, o problema do aquecimento global já havia sido identificado e discutido pela comunidade científica. Na Europa, o grupo consultivo sobre gases de efeito estufa, instituído em conjunto pela OMM, PNUMA e CIUC, propôs que a taxa de aquecimento global deveria ser limitada a no máximo 0,1oC por década e, no total, a 2oC acima dos níveis pré-industriais (Randalls, 2010).

Apesar do pequeno alcance político, o grupo consultivo sobre gases de efeito estufa teve grande influência sobre a forma de abordar as mudanças climáticas. Em vez de tratar o dióxido de carbono – CO2 – como um poluente, introduzindo formas diretas de controle, a política climática adotou o ponto de vista de uma avaliação de riscos. No lugar de medidas de controle da poluição, a política climática se pautou na definição de níveis toleráveis de mudanças climáticas e de níveis excessivos e perigosos (Randalls, 2010).

A administração dos Estados Unidos, na época ocupada pelo partido republicano, considerou que o grupo consultivo sobre gases de efeito estufa fomentava uma agenda política internacional sem que antes a ciência do clima fosse verificada pela comunidade científica e pelos governos (Randalls, 2010). Os EUA intervieram junto ao conselho executivo da OMM para que ela, em conjunto com o PNUMA, criasse um órgão intergovernamental de avaliação das mudanças climáticas (Mahony, 2014).

O formato intergovernamental atendeu aos interesses de facções da administração dos EUA, que desconfiavam de avaliações realizadas por especialistas que não fossem submetidas ao escrutínio do governo. Ao mesmo tempo, o formato intergovernamental ia de encontro ao desejo de apoiar mais pesquisas, em vez de assumir compromissos imediatos de mitigação. A partir de sua fundação, o IPCC evoluiu para se tornar a principal fonte de informações científicas a respeito das mudanças climáticas (Mahony, 2014).

Fontes:
Este artigo foi elaborado a partir de dados do próprio IPCC. Quando indicado, as informações contidas nos parágrafos foram extraídas dos artigos abaixo:
Mahony, M., 2014. The IPCC and the Geographies of Credibility. History of Meteorology, Volume 6, pp. 95-112.
Randalls, S. (2010), History of the 2C climate target. WIREs Clim Change, 1: 598–605. 
Imagem: Flickr/IPCC – abertura da 39a sessão do IPCC em Berlim, Alemanha, 2014

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