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Influência do clima nas doenças infecciosas

Um dos potenciais impactos das mudanças climáticas diz respeito às doenças infecciosas. Poderão ocorrer efeitos sobre a sua distribuição espacial, sobre seus ciclos anuais ou sazonais, sobre sua incidência ou até mesmo sobre seu nível de gravidade. Algumas evidências sugerem que certos tipos de doenças infecciosas estão se estendendo a pontos de maior latitude ou altitude.

Publicado recentemente no jornal científico Scientific Reports, um time de cientistas do Reino Unido e da Tailândia quantificou a sensibilidade às mudanças no clima das doenças infecciosas causadas por agentes patogênicos na Europa. De acordo com os cientistas, a Organização Mundial de Saúde, a Organização Mundial de Saúde Animal e a própria União Européia, entre outras instituições, apontam como prioritária a área de pesquisa sobre a influência das mudanças climáticas em patógenos infecciosos.

Um total de 157 patógenos de alto impacto à saúde animal e humana na Europa foram avaliados, identificando-se a sensibilidade de cada um deles a inúmeras variáveis meteorológicas. Mais de 63% dos patógenos avaliados apresentaram sensibilidade a pelo menos uma das variáveis meteorológicas. Desse total, 82% deles estavam associados à fatores como temperatura, velocidade dos ventos, padrão das chuvas, ou ocorrência de eventos extremos, como inundações ou secas.

Os autores argumentaram que a maior parte dos patógenos com alguma sensibilidade a uma variável meteorológica deve sofrer influência das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, patógenos sensíveis a um conjunto de variáveis meteorológicas, que totalizam dois terços daqueles avaliados pelo estudo, terão maior exposição às mudanças climáticas ou serão impactados de uma forma multifacetada e complexa. Nesse sentido, o estudo alerta que modelos computacionais, geralmente focados na temperatura, devem ser aprimorados a fim de incluir outras variáveis como chuvas e umidade do ar.

Avaliando as diferentes vias de transmissão das doenças infecciosas, o estudo identificou que aquelas transmitidas por vetores, por alimentos, pela água ou pelo solo são os mais propensos a sofrer influência das mudanças climáticas. Também foi observado que alguns táxon possuem maior sensibilidade a variáveis meteorológicas do que outros, tendendo dessa forma a apresentar maior sensibilidade, como no caso dos protozoários e helmintos (vermes). Fungos, bactérias e vírus tem, com algumas exceções, menor ligação com variáveis meteorológicas.

As zoonoses, doenças infecciosas de animais que podem ser transmitidas para os seres humanos, mostraram-se mais sensíveis às mudanças climáticas, em comparação com doenças que ocorrem exclusivamente em pessoas ou em animais. Considerando a estimativa de que 75% das doenças emergentes – novas doenças infecciosas que afetam os seres humanos – são zoonoses, como, por exemplo, a gripe aviária e a gripe suína, os cientistas alertaram para a possibilidade das doenças emergentes serem extremamente sensíveis ao clima.

O estudo indica que a influência das mudanças climáticas sobre as doenças infecciosas se dá em conjunto com fatores socio-demográficos. No caso específico da relação entre um agente patogênico e uma variável meteorológica, ela raramente é linear, e muitas vezes depende também de outras variáveis.  Ainda assim, restringindo a análise à sensibilidade dos patógenos ao clima, os cientistas puderam concluir que as principais doenças infecciosas na Europa são vulneráveis às mudanças climáticas.

Mais informações: Systematic Assessment of the Climate Sensitivity of Important Human and Domestic Animals Pathogens in Europe
Imagem: Pixabay

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