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Incêndios na Austrália e a influência do aquecimento

O mundo iniciou uma nova década assistindo à temporada de fogo extremo na Austrália. Estima-se que, até o momento, as queimadas no país atingiram mais de 60 mil quilômetros quadrados – ou 6 milhões de hectares -, o equivalente a aproximadamente todo o território do estado da Paraíba e do Distrito Federal somados.

A década de 2020 deverá ser caracterizada por eventos semelhantes em todo o mundo, manifestando de forma cada vez mais evidente as consequências do aquecimento global. Sem precedentes, catastróficos, anormais, termos como estes terão aplicação recorrente para descrever as mudanças que ocorrerão nos próximos dez anos.

Mapa dos estados da Austrália
Mapa dos estados da Austrália. À esquerda, região oeste do país. À direita, região leste, onde ficam os estados de Nova Gales do Sul e Victoria. Fonte: Wikimedia.

Incêndios da vegetação são comuns na Austrália. O país apresenta um clima em geral quente e seco, e em qualquer época do ano alguma parte está suscetível ao fogo. No norte do país, o período de queimadas se concentra no inverno e na primavera. No leste, durante o verão e o início da primavera, e no sul, no verão e no outono.

Além disso, desastres naturais associados ao fogo aconteceram anteriormente. Entre 1967 e 2013, os principais incêndios florestais resultaram em mais de 8 mil feridos e 433 mortes, com danos estimados em no mínimo 4,7 bilhões de dólares australianos.

Trata-se de um país que aprendeu com os eventos passados, investindo em metodologias e instituições voltadas ao controle e combate a incêndios. Inclui a previsão do tempo e do risco de incêndios pelo centro meteorológico nacional, o monitoramento de focos de incêndio em tempo real, sistemas de alerta, legislações, e uma rede de agências e outras entidades, como brigadas de incêndio regionais.

Mas em relação ao fogo que se espalhou no final de 2019 e início da década de 2020, deve-se repetir o que afirmou o Conselho do Clima australiano, organização voltada à divulgação das mudanças climáticas no país: “Isto não é normal”. As condições observadas em alguns estados foram catastróficas e sem precedentes.

Imagem de satélite de incêndios sudeste da Austrália e Tasmânia
Imagens de satélite mostram os focos de incêndio no sudeste da Austrália e na Tasmânia, com a pluma de fumaça sobre o Oceano Pacífico. Fonte: NASA.

“O que está acontecendo é extraordinário”, afirmou David Bowman, pesquisador do Centro de Incêndios da Universidade da Tasmânia, a respeito das recentes queimadas na Califórnia e na Austrália. Extraordinário será outra palavra amplamente utilizada nesta década.

Segundo ele, os incêndios na Austrália atingiram uma escala geográfica e uma intensidade fora do normal. Florestas úmidas de eucalipto, que raramente queimam, secaram e pegaram fogo. Áreas pantanosas também secaram e pegaram fogo.

Na Tasmânia, ambientes que historicamente quase nunca são atingidos pelo fogo – talvez uma vez a cada mil anos – passaram a conviver com queimadas mais frequentemente.

Quebrando recordes

“No registro dos últimos 150 anos, nada – tão cedo na temporada – se aproximou da escala e ferocidade dos incêndios atuais”, ressaltou o professor de riscos geofísicos e climáticos da universidade UCL, do Reino Unido. “Em um país onde os recordes de temperatura foram quebrados duas vezes em dezembro, seria impensável questionar um papel do aquecimento global nesse nível sem precedentes de atividade de incêndios florestais”.

Gráfico Temperatura média Australia
O gráfico mostra a evolução da temperatura média na Austrália entre 1910 e 2019. Fonte: Centro de Meteorologia.

De fato, as condições climáticas na Austrália em 2019 bateram recordes – outra expressão que vai se tornando de uso comum devido ao aquecimento global. Segundo o Centro de Meteorologia australiano, 2019 foi o ano mais quente do registro histórico. A temperatura média do país ficou 1,52°C acima da média do período entre 1961 a 1990, e a mesma tendência ocorreu com as temperaturas médias máximas.

Na Austrália, todos os anos a partir de 2013 estiveram entre os dez mais quentes do registro histórico. 

A quebra de recorde não se limitou à temperatura, mas também abrangeu a quantidade de chuvas. O Centro Meteorológico classificou 2019 como o ano mais seco já registrado na Austrália, com uma precipitação média nacional de 277,6 mm de chuva. O valor ficou 40% abaixo da média de 1961 a 1990.

Gráfico anomalia de precipitação Austrália
O gráfico apresenta a anomalia de precipitação na Austrália, em relação à média anual de chuva entre 1961 e 1990. Os anos de 2018 e 2019 registraram chuvas menores do que a média. Fonte: Centro de Meteorologia.

Como resultado de condições tão extraordinárias, durante a primavera, entre os meses de setembro e dezembro, o índice de perigo de incêndios florestais calculado pelo Centro Meteorológico atingiu o maior nível desde que foi implementado. Todos os estados e territórios do país apresentaram áreas com risco alto.

“Não poderíamos imaginar a escala do evento atual [os incêndios] antes que ele acontecesse. Teríamos nos dito que era exagero”, ressaltou David Brown.

Incêndios em um contexto de aquecimento global

Não há dúvida de que os eventos atuais acontecem em um contexto de aquecimento global. Uma das rotinas do Centro de Meteorologia, em parceria com o centro de pesquisa climática australiano CSIRO, é monitorar, avaliar e divulgar as evidências do aquecimento e das mudanças climáticas no país.

O quinto e último relatório bienal, publicado em 2018, ressaltou que “o Tempo e o Clima da Austrália continuam a mudar em resposta ao aquecimento do clima global. A Austrália aqueceu pouco mais de 1°C desde 1910, com o maior aumento concentrado a partir de 1950″.

Gráfico frequencia de eventos de calor extremo Austrália
O gráfico mostra a evolução da frequência de eventos de calor extremo registrados anualmente na Austrália. Fonte: Centro de Meteorologia/ Relatório ‘Estado do Clima 2018’.

Em resposta ao aquecimento, tem se registrado na Austrália uma elevação na frequência de eventos extremos de calor e na severidade das secas durante períodos de chuva abaixo da média. Temperaturas máximas e temperaturas mínimas mensais muito altas, que se verificavam apenas 2% do tempo entre 1951 e 1980, passaram a ocorrer em 12% do tempo entre 2003 e 2017.

Mapa tendencia de chuvas ultimos 20 anos Australia
Tendência da quantidade de chuvas das últimas duas décadas entre os meses de abril a outubro. Fonte: Centro de Meteorologia/ ‘Relatório Estado do Clima 2018’.
Mapa tendencia risco de incendios ultimos 40 anos Australia
Tendências do Índice de Risco de Incêndio entre os anos de 1978 e 2017 para os meses de junho e julho. Cores vermelha e amarela indicam aumento do risco. Fonte: Centro de Meteorologia/ Relatório ‘Estado do Clima 2018’.

No caso das chuvas, apesar de grande variabilidade natural, o relatório apontou que algumas regiões australianas evidenciavam tendências subjacentes de longo prazo. O sudoeste e sudeste da Austrália experimentavam condições mais secas entre os meses de abril a outubro. O norte do país, por outro lado, especialmente o noroeste, mostrou maior umidade em todas as estações do ano.

A tendência de crescimento do calor e da seca impactaram o índice de perigo de fogo. Nas últimas décadas, em muitas regiões da Austrália, a estação meteorológica de incêndio se expandiu. Também subiram a quantidade de dias que apresentavam índices nos patamares de risco 10% mais extremos.

Uma combinação explosiva: aquecimento, seca e meteorologia

O contexto de aquecimento global e de mudanças climáticas tornou mais favorável o regime de fogo na Austrália. Parte do país atravessava uma grande seca desde 2017, e fatores meteorológicos em 2019 intensificaram ainda mais a suscetibilidade a incêndios.

Um dos elementos por trás de condições mais secas na Austrália é o fenômeno conhecido como dípolo do Oceano Índico. A temperatura das águas superficiais do leste do Oceano Índico oscila entre fases mais quentes, neutras e mais frias, em comparação com as águas superficiais do oeste.

O ano de 2019 registrou uma fase positiva extremamente forte do dípolo do Oceano Índico. Nessa fase, as temperaturas da água superficial na região leste ficam mais frias, interferindo no regime de chuvas da Australia.

De acordo com o pesquisador Matthew W. Jones, da Escola de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, “a seca experimentada nos últimos meses está ligada a um oceano de superfície excepcionalmente frio no leste do Oceano Índico, o que levou ao ar seco incomum no norte e oeste da Austrália”.

O ar seco se combinou com uma corrente de vento de oeste sobre a Austrália mais forte do que o normal. De acordo com o Sistema de Monitoramento Atmosférico Copérnico, da União Européia, um raro aquecimento da estratosfera se deu em setembro de 2019. O fenômeno, que provocou um comportamento estranho do buraco de ozônio, trouxe uma corrente de ventos quentes e secos em toda a superfície australiana. 

O dípolo do Oceano Índico excepcionalmente forte, o raro aquecimento da estratosfera sobre a Antártica, e as tendências de longo prazo de aquecimento criaram condições peculiares – mais uma palavra que deverá constar no vocabulário desta nova década de aquecimento global.

“As temperaturas quebraram recordes e as chuvas ficaram abaixo da média, secando a vegetação da floresta e material combustível nos solos – condições perfeitas para o fogo”, completou o pesquisador.

Calor extremo, fogo extremo

Ondas de calor em dezembro fizeram com que os termômetros batessem recordes de temperatura. No dia 16, o país registrou a maior temperatura média diária da história, de 40,9ºC. No dia seguinte, a temperatura média diária subiu ainda mais, chegando 41,9ºC. Na cidade de Nurllabor, no sul da Austrália, a temperatura alcançou escorchantes 49,9ºC.

Queimada no estado de Victoria Austrália
Incêndios se alastraram pelo estado de Victoria a partir de dezembro. Fonte: Flickr/ Ninian Reid.

As ondas de calor vieram como se fossem um fósforo acesso. Os dados de satélite do Sistema Copérnico mostram pequena atividade de incêndios na Austrália entre setembro e novembro, em comparação com a média dos anos entre 2003 e 2018.

A única exceção era o estado de Nova Gales do Sul, no sudeste, onde se localiza a cidade de Sidney. Episódios de incêndios extremos da vegetação tiveram início em Nova Gales do Sul a partir de setembro.

A partir de dezembro, o monitoramento por satélite detectou que a atividade de incêndio havia se espalhado por todo o país, em níveis bem superiores à média dos últimos 16 anos. Na região oeste, verificou-se um crescimento exponencial nas queimadas. Na região leste, dezembro marcou uma intensificação das queimadas em Nova Gales do Sul e o surgimento de focos no estado vizinho de Victoria.

Fogo, árvores e sequestro de carbono

Além de queimar até o momento aproximadamente 60 mil quilômetros quadrados, estimou-se que os incêndios lançaram cerca de 400 milhões de toneladas de dióxido de carbono – CO2 – para a atmosfera. O CO2 é o principal gás do efeito estufa. A pluma de fumaça dos incêndios se estendeu por cerca de 20 milhões de quilômetros quadrados, e uma pequena parte chegou até a América do Sul.

“Sabemos que secas, ondas de calor e incêndios florestais estão se tornando mais comuns em todo o mundo à medida que nosso planeta esquenta”, disse o cientista Nicolas Bellouin, do departamento de meteorologia da Universidade de Reading, no Reino Unido. Além dos incêndios na Austrália servirem como uma amostra do que virá no futuro, eles apontam para as dificuldades em mitigar o aquecimento através do plantio de árvores.

Para Nicolas, “é improvável que o plantio de árvores seja a panaceia para combater as mudanças climáticas que alguns sugerem. Plantar árvores não impedirá o avanço do aquecimento global se as árvores pegarem fogo todo verão. Quando as florestas queimam, elas não armazenam muito carbono”.

Considera-se panaceia qualquer coisa que, sozinha, acredita-se ser a solução para remediar vários ou todos os males. Talvez ela não seja uma palavra muito utilizada nesta nova década que se inicia. Apesar de ser muito provável que haverá abundância de panaceias – diversas, aliás, já tem sido propostas.

Fontes e mais informações: Centro Meteorológico da Australia, Australia Geociências, Organização Mundial de Meteorologia, The Bureau of Meteorology and CSIRO (2018), ‘State
of the Climate 2018‘, Conselho do Clima da Austrália, Centro de Pesquisa de Incêndio da Universidade da Tasmânia, Sistema Copérnico, Science Media Centre
Imagem: Flickr/ Rob Dowunder – incêndios na Ilha do Canguru

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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