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A história dos incêndios na Amazônia

Os incêndios na Amazônia alcançaram o pico entre 7.000 e 3000 anos atrás, durante o período de maior calor registrado nos últimos 13 mil anos. Mas desde cerca de 1730, em função do maior desmatamento e do aquecimento global, voltou a subir a frequência de incêndios na região, apontou estudo de cientistas da Suíça.

A queima de biomassa provoca emissões de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono – CO2. Anualmente, estima-se que 348 milhões de hectares são atingidos pelo fogo em todo o mundo. A quantidade de emissões das queimadas representa aproximadamente a metade das emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis.

A região mais afetada pela queima da vegetação é a África. A América do Sul vem em segundo lugar. De acordo com o estudo, o continente sul-americano, entre 1997 e 2004, abrigou entre 16% e 27% da área queimada por ano mundialmente, correspondendo a emissões de carbono entre 300 e 900 milhões de toneladas, ou quase 14% das emissões globais anuais.

O Brasil concentra a maior quantidade de queimadas, abrangendo 60% dos registros na América do Sul. Entre as regiões mais suscetíveis ao fogo, incluem-se o cerrado e as florestas tropicais sazonalmente secas do extremo sul da Amazônia. Além da estação seca, estendendo-se de junho a outubro, a atividade humana contribui para a ocorrência de queimadas, em geral associadas ao desmatamento, à agricultura e pecuária.

Reconstruções históricas indicam que incêndios estavam quase ausentes da Bacia Amazônica antes dos anos 60. Pesquisas de períodos mais antigos, baseados em núcleos de gelo da Antártica, sugeriram que o pico de fogo na Amazônia se deu entre 6.000 e 8.000 anos atrás.

E nos últimos 2.000 anos, a frequência de fogo na região teria diminuído até por volta de 1800, voltando a registrar um grande crescimento no século passado. No entanto, devido à distância, as informações extraídas de núcleos de gelo da Antártica sofrem de incertezas.

A fim de investigar com mais detalhe a história dos incêndios na Amazônia, os cientistas utilizaram um núcleo de gelo retirado da geleira Illimani, nos Andes da Bolívia. Eles mediram as concentrações de carbono preto nas camadas do gelo. O carbono preto é produzido pela queima de biomassa, servindo como indicador da ocorrência de queimadas.

Grafico de incêndios na Amazônia nos últimos 1000 anos
Gráfico mostra a concentração de carbono preto registrada nos últimos mil anos (linha preta). O carbono preto serve como indicados da queima de biomassa. A linha verde mostra a temperatura média. Fonte: adaptado da figura 5 do estudo.

A análise do núcleo de gelo dos Andes permitiu a reconstrução histórica dos últimos 13.000 anos, abrangendo desde o fim da última glaciação até o início deste século. Os dados obtidos no estudo foram comparados com outros registros paleoclimáticos, como sedimentos de lagos e núcleos de gelo da Antártica.

Observou-se que os incêndios seguiam um padrão sazonal, mais frequentes durante a estação seca e menos durante a estação chuvosa. Nos últimos 13.000 anos, a frequência também variou em conformidade com as condições de temperatura e umidade do sistema climático, em especial no hemisfério norte, confirmando os resultados de pesquisas anteriores.

A maior frequência de incêndios coincidiu com o período de maior calor, entre 7000 e 3000 anos atrás. As condições climáticas mais quentes e secas levou aos maiores níveis de queima de biomassa, sem precedentes no contexto dos últimos 13 mil anos.

A tendência era de queda na quantidade de incêndios após 3.000 anos atrás, sendo interrompida por volta de 1730. Daí em diante, o estudo observou a retomada do crescimento das queimadas. Em particular, nas últimas décadas do século passado, devido ao desmatamento e temperaturas mais altas.

Desde 2005, políticas ambientais brasileiras reduziram o desmatamento e os incêndios na Amazônia. Mas o desmatamento voltou a subir em anos recentes. Com o avanço do aquecimento global, a floresta poderá enfrentar maior ameaça do fogo no futuro.

Mais informações: Osmont, D., Sigl, M., Eichler, A., Jenk, T. M., and Schwikowski, M.: A Holocene black carbon ice-core record of biomass burning in the Amazon Basin from Illimani, Bolivia, Clim. Past, 15, 579-592, 2019.
Imagem: figura 1 do estudo

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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