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Há 30 anos o El Nino não é mais o mesmo

Nos últimos 30 anos, o El Niño não tem sido mais o mesmo. A mudança de comportamento desse fenômeno do oceano Pacífico pode ser creditada ao aquecimento global, apontou estudo de cientistas de universidades da Austrália.

Os eventos do El Niño são geralmente classificados em dois tipos principais. Existem aqueles nos quais as anomalias na temperatura das águas superficiais do oceano Pacífico ocorrem na região leste. Outros registram o pico do aumento da temperatura da água na parte mais a oeste, na região central.

Cada tipo de El Niño provoca diferentes efeitos sobre a temperatura e a precipitação em outras partes do mundo, particularmente na Austrália, no sudeste da Ásia e nas Américas. Segundo o estudo, evidências recentes haviam sugerido que os eventos na região central estão se tornando mais frequentes.

Outras pesquisas indicavam que os El Niños formados no leste do Pacífico estariam ganhando intensidade. Os anos de 1997 e 1998, e de 2015 e 2016, são exemplos de eventos do leste. Nesses anos, o Brasil experimentou secas mais intensas na Amazônia e no Nordeste, além de chuvas acima do normal na região sul.

No entanto, a pesquisa a respeito do fenômeno ainda enfrentava uma grande limitação. O curto registro instrumental do El Niño impedia uma avaliação apropriada de tendências em seu comportamento. Não existia uma base de dados que se estendesse ao passado e permitisse contextualizar as variações observadas atualmente.

O estudo conseguiu suprir essa lacuna, reconstruindo a ocorrência dos tipos diferentes de El Niño nos últimos 400 anos. O feito foi realizado a partir da análise de núcleos extraídos de recifes de coral. Assim como as árvores marcam seu crescimento na forma de anéis, cujas características constituem indicadores de condições ambientais, certas espécies de coral também apresentam em sua estrutura marcas de crescimento sazonal.

No entanto, os cientistas tiveram que desenvolver uma nova técnica para analisar quimicamente a estrutura dos corais. A partir daí, eles identificaram 27 recifes de corais, distribuídos por todo o oceano Pacífico, em cujas estruturas era possível identificar as marcas dos eventos de El Niño registrados recentemente.

As marcas de crescimento desse conjunto de recifes de coral foram utilizadas para detectar a ocorrência de eventos mais antigos de El Niño. Como os recifes de coral são organismos muito antigos, o estudo conseguiu reconstruir as condições dos últimos 4 séculos.

Os resultados mostraram, nos últimos 30 anos, um aumento sem precedentes na frequência de El Niños formados na região central do Pacífico. Também confirmaram que os recentes e mais fortes El Niños formados na região leste, como os de 1997/98 e 2015/16, consistiram nos eventos mais intensos dos últimos 400 anos.

A nova base de dados poderá auxiliar em projeções de como a continuidade do aquecimento global irá interferir na ocorrência do El Niño. É provável aumentam a frequência e intensidade do fenômeno.

O vídeo abaixo (em inglês) apresenta uma síntese do estudo.

Fonte: CLEx
Mais informações: Freund, M., Henley, B., Karoly, D., McGregor, H., Abram, N., Dommenget, D. Higher frequency of Central Pacific El Niño events in recent decades relative to past centuriesNature Geoscience.
Imagem: núcleo de coral, com marcas anuais de crescimento. Retirado da figura 2 do estudo: Lough, J.M. and Cantin, N.E., 2014. Perspectives on massive coral growth rates in a changing ocean. The Biological Bulletin226(3), pp.187-202.

Informações científicas e recursos audiovisuais sobre o aquecimento global, o efeito estufa e as mudanças climáticas
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