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O futuro de pragas e doenças de plantas com o aquecimento global

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA – lançou recentemente o livro “Aquecimento Global e Problemas Fitossanitários”. O livro traz inúmeros artigos científicos que exploram a possível interferência do aquecimento global e das mudanças climáticas sobre doenças, pragas e plantas invasoras de importantes culturas do agronegócio brasileiro.

Entre os centros de pesquisa brasileiros, a EMBRAPA foi pioneira na realização de estudos sobre os possíveis efeitos das mudanças climáticas sobre as doenças e pragas agrícolas. O livro faz parte da comemoração de 35 anos de fundação da EMBRAPA, trazendo as projeções climáticas futuras para o Brasil, bem como as potenciais consequências fitossanitárias do aquecimento global. As consequências para o agronegócio brasileiro podem ser significativas.

Adaptando o manejo do café

A ferrugem do café mancha e faz as folhas caírem, prejudicando a produção.

Umas das consequências discutidas no livro é sobre a mais importante doença em todas as regiões produtoras de café arábica: a ferrugem. Causada por um fungo, a doença se caracteriza por manchas nas folhas, que caem e debilitam a planta e a formação dos botões florais. A ferrugem reduz em 35% em média a safra do ano seguinte.

O aumento da concentração atmosférica de gás carbônico – CO2 – pode ter um efeito benéfico sobre o crescimento dos pés de café, a chamada fertilização do CO2. Com isso, ficaria reduzida a severidade da ferrugem. Entretanto, o aumento da temperatura tem o potencial de reduzir o período de incubação da doença, particularmente durante o inverno e a primavera. Nesse cenário, a epidemia da ferrugem ficaria mais dependente da ocorrência de períodos chuvosos.

A continuidade de tratamento genético pode aumentar a resistência do café à ferrugem. O manejo químico e biológico precisarão se adequar às novas condições climáticas, incluindo número e época de aplicação de produtos.

Favorecimento do eucalipto e de suas doenças e pragas

O cultivo do eucalipto também é vulnerável à doenças foliares. Um dos maiores produtores mundiais, o Brasil possuía em 2015 cerca de 5,6 milhões de hectares plantados, quase 12% concentrado na região Sul. A mais preocupante doença do cultivo de eucalipto é a ferrugem causada pelo fungo Puccinia psidii Winter

A doença atinge mudas e árvores jovens ou novos brotos, geralmente com até dois ou três anos de vida, dependendo da espécie. O fungo produz prejudica a fotossíntese da planta, diminuindo o rendimento dos cultivos. Em casos severos, diminui a produção de celulose ou até mesmo leva a planta à morte. Condições climáticas favoráveis à ferrugem combinam temperaturas amenas e alta umidade relativa do ar.

Atualmente, condições climáticas favoráveis à doença ocorrem na região Sul do Brasil em maior parte no verão em
relação às outras estações. Durante o inverno, as condições são usualmente desfavoráveis. A projeção de cenários futuros sugere que as regiões de altitude podem se tornar muito favoráveis à doença. Em grande parte da região Sul, o inverno passaria a apresentar condições favoráveis ou muito favoráveis. Ao mesmo tempo, o inverso ocorreria durante o verão, devido ao aumento da temperatura, redução da umidade relativa do ar e das chuvas.

O percevejo bronzeado ataca as folhas do eucalipto.

Outra praga associado ao eucalipto é o percevejo-bronzeado. Trata-se de um inseto sugador, de aproximadamente 3 mm de comprimento quando adulto, corpo achatado e cor marrom clara. As infestações do inseto prejudicam a fotossíntese, causando a queda de folhas ou até mesmo a morte das árvores.

As projeções de cenários futuros sugerem que o percevejo-bronzeado encontrará condições que favorecem a diminuição do ciclo e o aumento do número de gerações ocorridas em um ano. Dessa forma, é possível que as mudanças climáticas levem a um aumento populacional do inseto.

Piores condições para o pêssego

O Brasil produz anualmente cerca de 216 mil toneladas de pêssegos, em uma área de 19 mil hectares. O estado do Rio Grande do Sul responde por 65% da produção nacional. O pessegueiro tem uma forte relação com o clima. A planta depende do frio do inverno para completar o período de dormência, a fim de que a brotação e floração ocorram uniforme e normalmente. Entre as principais pragas do pessegueiro estão a mosca-das-frutas sul-americana, a mosca-do-mediterrâneo, e a mariposa oriental. As três espécies atacam os frutos e podem causar perdas econômicas. 

As mudanças climáticas podem ameaçar a produção de pêssego no Brasil, em especial por causa do aumento das temperaturas. O impacto estaria ligado ao inverno se tornar mais ameno, de forma que não se verifique mais o acúmulo mínimo de horas de frio para a produção frutos de qualidade. Além disto, o aquecimento favorece o número de gerações das três pragas, o que poderá levar ao aumento de suas populações.

O mogno e a mariposa

O mogno constitui a mais valiosa espécie de madeira comercial nativa dos trópicos. Apesar disso, o plantio comercial do mogno enfrenta um fator limitante no Brasil. É a mariposa broca do ponteiro ou broca das meliáceas. Uma tentativa de cultivar mogno no estado do Pará fracassou por causa dela. A lagarta da mariposa tem um apetite insaciável por mogno. Ela perfura e mata novos brotos e perfura brotações em desenvolvimento, prejudicando a formação de um tronco comercialmente aproveitável.

Uma única lagarta da mariposa do mogno é capaz de causar enormes prejuízos. Foto: mognobrasileiro.com.br

O inseto é considerado a principal praga florestal da América Latina e do Caribe, atacando outras árvores pertencentes à subfamília Swietenoideae – como, por exemplo, o cedro-rosa. O ciclo biológico do inseto, incluindo fases que vão de ovo a adulto, está ligado às condições climáticas. Os cenários futuros de mudanças climáticas indicam, em todas as regiões do país, uma tendência de diminuição do ciclo biológico da mariposa e do aumento do número de gerações ocorridas em um ano.

A importância da continuidade da pesquisa científica

Outros artigos do livro da EMBRAPA abordam, entre outros, as consequências das mudanças climáticas nos cultivos de algodão, cana-de-açúcar, oleaginosas e nas pastagens. Ressalte-se que os cenários futuros projetados pelos modelos climáticos são aproximações e sempre limitados. Além disso, os impactos das mudanças climáticas se verificarão sobre o conjunto de espécies que compõem um ecossistema e de suas relações e interações umas com as outras. É preciso aprofundar a pesquisa científica, a fim de melhor compreender essas relações, e monitorar continuamente a trajetória das variáveis climáticas. 

Mais informações: Aquecimento Global e Problemas Fitossanitários 
Imagem: Flickr/ Maria Hsu

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