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Fogo na Amazônia influencia derretimento de geleiras

O fogo e as queimadas na Amazônia podem ter consequências sobre as geleiras tropicais localizadas nos Andes. Estudo de cientistas de universidades brasileiras e da França identificou, pela primeira vez, como carbono preto originado dos incêndios da Bacia Amazônica são transportados pelo ar e se depositam sobre a superfície de geleiras andinas.

Na Amazônia, de acordo com o estudo, o principal fatores por trás do desmatamento e das queimadas são as práticas econômicas e a ocupação humana. A fronteira agrícola avança sobre a floresta, derrubando e queimando a vegetação.

Um dos produtos liberados pela queima da biomassa vegetal é o carbono preto, um tipo de aerossol que pode ser transportado pela atmosfera. Ele consiste em uma partícula de carbono que tem a capacidade de absorver a luz do sol.

Pesquisas anteriores identificaram que o carbono preto interfere na dinâmica de geleiras de montanhas. Ao se depositar na superfície do gelo, o carbono preto modifica o albedo da neve. A deposição de grandes quantidade de carbono preto reduz a quantidade de luz solar refletida pela neve.

Com isso, eleva-se a quantidade de radiação solar absorvida na superfície da geleira, levando a uma aceleração no derretimento da neve.

No caso das geleiras tropicais localizadas nos Andes, elas estão perdendo massa desde a década de 1970. Projeções sobre a tendência de derretimento, em um contexto de aquecimento global, não levam em consideração as modificações no albedo da superfície das geleiras.

Os incêndios na Amazônia representariam uma possível fonte de carbono preto. Em primeiro lugar, estima-se que, anualmente, as queimadas na Amazônia e em biomas de savana – como o Cerrado – emitam mais de 800 mil toneladas de carbono preto para a atmosfera. Esse valor é maior do que as emissões anuais de carbono preto pela queima de combustíveis fósseis e biocombustíveis na Europa, de aproximadamente 470 mil.

Além disso, usualmente as queimadas se concentram durante o período de transição entre a estação seca e a chuvosa, entre agosto e outubro. Nesse período, a remoção dos aerossóis da fumaça pelas chuvas é pequena, e os ventos predominantes podem transportar o carbono preto por grandes distâncias.

O período também apresenta maior insolação sobre as geleiras tropicais dos Andes. Nesse sentido, a deposição de carbono preto de queimadas na Amazônia teria o potencial de aumentar a taxa de derretimento do gelo.

Para verificar se incêndios na Amazônia constituíam fonte de carbono preto depositado em geleiras dos Andes, os cientistas analisaram em detalhe a geleira de Zongo, na Bolívia. Eles levantaram todos os eventos de queimada registrados entre 2000 e 2016, incluindo dados meteorológicos e de satélite.

O estudo identificou que as plumas de fumaça de queimadas da bacia amazônica podem alcançar as geleiras tropicais dos Andes. Contudo, os efeitos na taxa de derretimento da geleira variariam de acordo com o tipo de material presente na neve.

A geleira de Zongo se mostrou vulnerável à influência do carbono preto da fumaça. As simulações realizadas pelo estudo, com base em um modelo computacional, indicaram que a deposição desse material sobre a superfície da geleira aumentaria a taxa de derretimento em cerca de 3,3%.

A presença de poeira interferiu no efeito do carbono preto sobre a taxa de derretimento. O estudo estimou que, quando o carbono se depositava em locais com pequena concentração de poeira na superfície da geleira, a taxa de derretimento aumentaria em cerca de 5%.

Altas concentrações de poeira anulariam o efeito do carbono preto. Todavia, em tais condições, o derretimento subiria em mais de 10%.

Os cientistas compararam os resultados com os dados do derretimento da geleira de Zongo em 2010. Eles detectaram que, durante a temporada de incêndios da Amazônia naquele ano, registrou-se um aumento no escoamento da geleira de cerca de 4,5%.

Ainda que pequeno, o estudo concluiu que os incêndios na Amazônia tem impactos sobre as geleiras tropicais dos Andes. Esse fator deve ser levado em consideração na gestão dos recursos hídricos dos países andinos.

Mais informações: Magalhães, N.d., Evangelista, H., Condom, T. et al. Amazonian Biomass Burning Enhances Tropical Andean Glaciers MeltingSci Rep 9,16914 (2019).
Imagem: figura 1 do estudo – transporte de fumaça da bacia amazônica para os Andes centrais registrado por satélites

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