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Exemplos de mudanças climáticas no passado da Arábia

O passado guarda algumas lições a respeito de como as sociedades humanas se adaptaram às mudanças climáticas. Ao longo do Holoceno, nos últimos 12.000 anos, o sistema climático atravessou modificações naturais, à medida que iniciava um período interglacial. E diferentes sociedades tiveram de se adaptar, utilizando respostas tecnológicas, econômicas e culturais, ou enfrentar o colapso.

Um dos lugares do mundo onde ocorreram mudanças climáticas no passado é a Península Arábica. Conhecer as sociedades que lá viviam, e o modo como lidaram com as mudanças, tem o potencial de nos ensinar os desafios que se avizinham com o atual aquecimento global, ressaltou estudo de um time internacional de pesquisadores.

Um dos esforços da arqueologia tem sido pesquisar as formas de interação entre os seres humanos e o meio ambiente ao longo da história. A ação humana transforma os ecossistemas naturais, muitas vezes de modo definitivo. Alterações climáticas e ambientais, por sua vez, tem o potencial de impactar as sociedades e grupos humanos, demandando adaptações culturais e materiais a novas condições.

De acordo com o estudo, a Península Arábica atravessou grandes mudanças climáticas milhares de anos atrás. Apesar de pouco estudada, a região possui um grande potencial para explorar a resposta de sociedades do passado às alterações ambientais.

O estudo utilizou registros paleoambientais e arqueológicos do norte e do sudeste da Península Arábica. O objetivo foi analisar correlações entre uma série de eventos de seca com mudanças culturais ou demográficas na região. Teriam as populações mostrado resiliência às alterações no clima? E como elas adaptaram o modo de vida para lidar com as mudanças?

Durante o auge da última glaciação, a Península Arábica apresentava um clima extremamente árido. Mas com a transição para o atual período interglacial, a região experimentou grandes mudanças climáticas. Segundo o estudo, a precipitação subiu significativamente a aproximadamente 10 mil anos atrás.

O maior volume de chuvas levou à formação de lagos e à expansão da cobertura vegetal, até por volta de 6 mil anos atrás. A partir daí, registra-se um retorno de condições climáticas áridas, dando lugar ao ambiente desértico que predomina atualmente na Arábia. Essas tendências gerais, no entanto, manifestavam-se de modo bastante variável no tempo e no espaço geográfico.

A pesquisa arqueológico apontam para, no início, uma grande flexibilidade das populações locais em responder às mudanças climáticas e ambientais. Durante milênios a mobilidade representou a principal estratégia de adaptação às mudanças. Os grupos humanos se deslocavam pelo território, acessando recursos necessários para sua sobrevivência.

O desenvolvimento social e político dos grupos humanos, e populações crescentes, levavam a uma queda da mobilidade. O vínculo com determinados lugares – por exemplo, oásis ou campos de pastagem – tornava-se mais forte, como sugere a construção de paredes e outras infraestruturas de pedra.

As mudanças ambientais podiam ser mitigadas por meio de soluções tecnológicas. Uma das ações mais inovadoras foi o acesso a fontes de água subterrâneas por meio da escavação de poços, elevando a resiliência de populações locais a variações climáticas.

Além disso, as transformações sociais instituíam um novo sentido de propriedade. Grupos humanos se transformavam em proprietários de lugares específicos. Em consequência, conflitos entre grupos rivais por um mesmo território poderiam emergir. Ou então disputas no interior de um mesmo grupo humano, em momento de estresse hídrico e redução de recursos.

As populações do norte e do sudeste da Península Arábica tiveram respostas distintas às crises climáticas. No sudeste, as grandes secas promoveram um esvaziamento do interior, uma vez que as populações migravam para a área costeira. No norte, locais no interior sustentaram assentamentos mesmo frente às secas.

A distinção teria sido possível porque, no norte, havia a presença de grandes aquíferos superficiais e acessíveis. A aplicação de práticas tecnológicas e sociais permitiu o acesso à essa fonte de água, facilitando a sobrevivência dos grupos humanos às crises climáticas. Aquíferos com as mesmas características não estavam disponíveis no sul.

Dessa forma, as alterações ambientais no norte promoveram uma reorganização social, e as populações apresentaram maior resiliência. No sul, as alterações levaram a modificações demográficas mais abruptas.

O exemplo das sociedades antigas da Península Arábica mostra como a resposta humana não era simples ou linear. As mudanças ambientais e climáticas eram absorvidas por estruturas sociais e políticas, resultando em uma diversidade de formas de adaptação. Bem como em níveis diversos de vulnerabilidade e de resiliência.

Em um planeta em aquecimento, as sociedades modernas tem de se preparar para as mudanças climáticas em curso. O passado é uma boa fonte de aprendizado.

Mais informações: Michael D. Petraglia, Huw S. Groucutt, Maria Guagnin, Paul S. Breeze, and Nicole Boivin. Human responses to climate and ecosystem change in ancient Arabia. PNAS, 2020
Imagem: figura 1 do estudo – mapa de sítios arqueológicos e de registros paleoclimáticos na Península Arábica

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