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Escassez de água pode limitar a bioenergia

Uma das principais alternativas para limitar o aquecimento global é a produção de energia a partir de biomassa com captura e armazenamento de carbono. Mas o desenvolvimento dessa tecnologia na escala necessária pode não ser viável em função da escassez de água, afirma estudo de pesquisadores franceses.

No âmbito do acordo climático de Paris, o compromisso de redução de gases de efeito estufa apresentado pelos países representará – caso cumprido – em emissões anuais na faixa entre 14,2 e 16,2 petagramas de carbono em 2030. Segundo o estudo, em 2014 as emissões somaram 13,4 petagramas.

Levando em consideração os compromissos declarados pelos países, alcançar as metas do acordo dependerá de fortes reduções de emissões após 2030, em geral combinadas com a implementação de tecnologia para sequestro de CO2 da atmosfera.

A aplicação em larga escala desse tipo de tecnologia está incluída na maioria dos cenários futuros do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, na sigla em inglês – em que a meta do acordo de Paris é cumprida. 

Entre as alternativas de sequestro estão o reflorestamento em grande escala e a bioenergia combinada com captura e armazenamento de carbono. Nos cenários do IPCC, assumiu-se que a segunda opção poderia ser aplicada em escala suficiente para fazer com que as concentrações atmosféricas de CO2 caíssem no futuro.

Mas estimativas anteriores apontaram para o enorme consumo de água para o cultivo da bioenergia. A fim de remover 1 petagrama de carbono da atmosfera por ano, seriam necessários entre 100 e 200 milhões de hectares e cerca de 720 km3 de água – o equivalente às captações anuais do Japão.

Não por acaso, a viabilidade da bioenergia com captura e armazenamento de carbono tem sido questionada no meio científico. O estudo contribuiu para o debate ao explorar fatores tecnológicos e de disponibilidade de água que potencialmente interfiram na implantação em grande escala da tecnologia.

Para tanto, os pesquisadores combinaram um modelo computacional do sistema terrestre com um modelo climático. Dessa forma, elaboraram 25 diferentes cenários para limitação do aquecimento global a 2oC acima dos níveis pré-industriais. Em cada um deles, investigaram a viabilidade da tecnologia frente a aspectos tecnológicos, sociais e do clima.

Em todos os cenários, limitar o aquecimento global a 2°C até 2100 exigiu a implementação maciça de bioenergia com captura e armazenamento de carbono e a redução das emissões. Contudo, a demanda de água necessária para que a tecnologia fosse aplicada em larga escala colocou em xeque sua viabilidade.

Em um contexto de mudanças climáticas futuras, as necessidades de água da bioenergia entraria em conflito com a quantidade utilizada na maioria das áreas de cultivadas, gerando uma situação de escassez. As alterações na hidrologia e futuras restrições de água poderiam reduzir em até 90% a possibilidade de implementação dessa tecnologia.

Dessa forma, muitos dos cenários do IPCC são pouco realistas. Caso as emissões de gases de efeito continuem nos níveis atuais até 2030, a bioenergia com captura e armazenamento de carbono constituirá uma alternativa limitada de mitigação.

Portanto, alertam os pesquisadores, para alcançar as metas do acordo climático de Paris, o pico de emissões de CO2 deve ser menor do que o estimado a partir dos compromissos assumidos pelos países. E deve ocorrer o mais cedo possível.

Mais informações: Constraints on biomass energy deployment in mitigation pathways: the case of water scarcity
Imagem: Freeimages

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