Press "Enter" to skip to content

Empresas de energia e negacionismo nos EUA

As concessionárias de energia elétrica dos Estados Unidos contribuíram para disseminar a desinformação sobre a ciência climática e o aquecimento global, afirmou relatório da organização não governamental norte-americana Instituto de Energia e Política.

Por meio de campanhas de comunicação e de relações públicas, as concessionárias de energia elétrica promoveram o negacionismo no país. O objetivo foi impedir que o governo adotasse medidas legais para limitar as emissões de gases de efeito estufa.

O relatório incluiu um levantamento de quase 50 anos de história das concessionárias de energia elétrica dos Estados Unidos e sua relação com o tema das mudanças climáticas. Para tanto, os autores investigaram fontes como bancos de dados e bibliotecas acadêmicas, arquivos de governo e revistas antigas do setor.

Foi identificado que, na década de 1960, a indústria de geração de energia elétrica do país havia sido informada pela comunidade científica das possíveis implicações da queima de combustíveis fósseis para o aquecimento global.

Uma das resposta às informações da ciência se deu em 1971. Concessionárias de energia elétrica passaram a disponibilizar uma pequena parte do orçamento do setor à pesquisa dos efeitos do dióxido de carbono – CO2 -, principal gás de efeito estufa, e de outros tipos de emissões de usinas de geração.

Os documentos mostraram que, através de instituições do setor, as concessionários investiram em pesquisas sobre as mudanças climáticas ao longo das décadas de 1970 e 1980. Inclusive contribuindo para o trabalho pioneiro do cientista Charles Keeling, que estabeleceu as bases para a medição das concentrações atmosféricas de CO2.

Durante as duas décadas, o investimento das concessionárias em pesquisa científica deu frutos. Elas identificaram o vínculo entre o aumento futuro dos níveis de CO2 atmosférico e o aumento da temperatura média global.

Além disso, sugeriram que o problema poderia envolver um esforço global, e também que esperar muito tempo para agir trazia o risco de causar níveis irreversíveis de mudanças climáticas.

As empresas do setor reuniram informações suficientes a respeito do tema e dos avanços do conhecimento científico.  Um dos exemplos veio de um oficial de uma associação de empresas do setor, alertando o congresso da possível necessidade de um dia restringir o uso de combustíveis fósseis para limitar as emissões.

Imagem de publicidade negando a ciência do aquecimento global
Exemplo de campanha de publicidade de 1991 destinada a gerar dúvida junto ao público. Fonte: retirado do relatório.

Outro exemplo consistiu, em 1988, no reconhecimento, por uma das instituições que representam o setor, do crescente consenso científico sobre o efeito estufa.

No entanto, de acordo com o relatório, as décadas de 1970 e 1980 também foram marcadas por grandes investimentos das concessionárias de energia elétrica no carvão enquanto matéria-prima para a geração de energia.

A partir de 1988, quando a discussão sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas alcança o grande público, o relatório identifica um posicionamento do setor contrário ao tema. A indústria passa a promover campanhas de desinformação do tema.

A história das concessionárias de energia elétrica apresentou grande semelhança com o que aconteceu no setor de petróleo e gás dos Estados Unidos, afirmou o relatório. Empresas como a ExxonMobil também se envolveram com pesquisa e tiveram conhecimento sobre as consequências do aquecimento global. E agiram no sentido de espalhar a dúvida entre o público.

É o vale tudo na defesa dos próprios interesses econômicos. Aliás, essa parece ser a principal característica dos novos tempos.

Entramos na era do vale-tudo.

Fonte: Instituto de Energia e Política
Mais informações: Anderson, David; Kasper, Matt; Pomerantz, David: Utilities Knew: Documenting Electric Utilities’ Early Knowledge and Ongoing Deception on Climate Change From 1968-2017. Julho, 2017. Disponível em https://drive.google.com/file/d/0B8l-rYonMke-NG5ONVZkZVVJMG8/view
Imagem: Pixabay

%d blogueiros gostam disto: